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Portugal e a psicologia: Como criar uma sociedade com voz

Portugal é frequentemente descrito como um país de pessoas pacíficas, resilientes e adaptáveis. No entanto, essas mesmas características podem também traduzir-se numa tendência para uma contenção emocional, para o evitamento do conflito e para uma postura mais passiva perante injustiças sociais, decisões organizacionais ou desafios coletivos. A forma como as pessoas participam na sociedade não é construída de forma isolada. As experiências emocionais, familiares, sociais e culturais influenciam profundamente a maneira como cada pessoa aprende a expressar-se, posicionar-se e a ocupar espaço nas relações e nos grupos.

A herança cultural portuguesa

A história portuguesa, marcada por longos períodos de autoritarismo e desigualdades sociais, pode ter contribuído, entre outros fatores, para a construção de modelos sociais onde a prudência emocional e o evitamento do confronto tendem a ser valorizados.

Jessica Benjamin (1988) descreve como muitas relações humanas se organizam à volta de dinâmicas de submissão e reconhecimento incompleto do outro. Quando a segurança emocional depende da manutenção da harmonia ou da obediência, pode desenvolver-se uma dificuldade em afirmar necessidades, discordar ou assumir posições mais ativas.

Stephen Mitchell (1988) acrescenta que as pessoas internalizam padrões relacionais repetidos ao longo da vida, reproduzindo-os posteriormente nos contextos profissionais, familiares e sociais. Assim, uma cultura que historicamente reforçou a adaptação e hierarquia tende a perpetuar relações em que a voz individual é frequentemente contida em nome da estabilidade.

O custo psicológico

Embora a harmonia social seja um valor importante, a passividade excessiva pode ter custos psicológicos significativos. Muitas vezes, aquilo que parece conformismo corresponde, na realidade, a estratégias de adaptação desenvolvidas ao longo do tempo.

Donald Winnicott (1965) descreveu o desenvolvimento do falso self como uma organização psicológica construída em torno da adaptação às expectativas externas, frequentemente à custa da espontaneidade e autenticidade pessoal. Quando as pessoas sentem que a sua voz não produz impacto nas relações, nas organizações ou na sociedade, podem desenvolver sentimentos de impotência, retraimento e desinvestimento emocional. Pelo contrário, experiências de validação, reconhecimento e escuta favorecem um maior sentimento de agência, criatividade e participação ativa.

O papel da psicologia na mudança social

Os padrões culturais e emocionais não são fixos. A mudança torna-se possível quando surgem contextos que permitem experiências diferentes das anteriormente vividas.

Jessica Benjamin (2004) sublinha a importância do reconhecimento mútuo como base para relações mais saudáveis e democráticas. Uma sociedade mais participativa constrói-se quando as pessoas conseguem reconhecer simultaneamente a própria subjetividade e a do outro, abandonando dinâmicas rígidas de submissão ou domínio. Da mesma forma, autores contemporâneos defendem que a transformação emerge em espaços onde existe abertura ao diálogo, à diferença e à construção conjunta de significado (Stolorow, Atwood, & Orange, 2002). Em contexto organizacional, educativo ou comunitário, isto implica promover culturas menos hierárquicas, emocionalmente mais seguras e mais abertas à participação.

A psicologia pode contribuir para esta mudança ao:

  • Promover relações que privilegiem o diálogo;
  • Desenvolver ambientes emocionalmente seguros;
  • Incentivar autenticidade e pensamento crítico;
  • Favorecer participação ativa e reconhecimento mútuo.

Questionar uma decisão injusta, expressar uma opinião divergente ou assumir iniciativa num grupo pode abrir espaço para reorganizações importantes nas relações.

Uma sociedade com mais voz não nasce do confronto permanente, mas da capacidade de sustentar relações onde a diferença pode existir com segurança. Ser uma sociedade mais participativa não implica abandonar valores culturais associados à empatia, proximidade ou equilíbrio social, o desafio passa por integrar esses valores com uma maior capacidade de expressão, pensamento crítico e intervenção consciente.

A psicologia ajuda-nos a compreender as raízes destes padrões, mas também demonstra que eles podem ser transformados através de novas experiências de reconhecimento, validação e participação. No fundo, trata-se de reconhecer que todos temos um papel na sociedade e que esse papel ganha força quando deixamos de ser espectadores e passamos a participar ativamente na construção coletiva.

Referências

Benjamin, J. (1988). The bonds of love: psychoanalysis, feminism, and the problem of domination. Pantheon Books.
Benjamin, J. (2004). Beyond Doer and Done To: An Intersubjective View of Thirdness. The Psychoanalytic Quarterly, 73(1), 5–46.
Mitchell, S. A. (1988). Relational concepts in psychoanalysis: An integration. Harvard University Press.
Stolorow, R. D., Atwood, G. E., & Orange, D. M. (2002). Worlds of experience: Interweaving philosophical and clinical dimensions in psychoanalysis. Basic Books.
Winnicott, D. W. (1965). Maturational Processes and the Facilitating Environment: Studies in the Theory of Emotional Development. Hogarth Press.