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E tu, já contribuis para a linguagem inclusiva no teu local de trabalho?

Artigo por
Marta Alves

No início deste ano letivo e em conversa com amigas acerca dos/as professores/as que ficaram com as turmas dos nossos filhos, ouvi o seguinte comentário: «Fico contente que seja um homem, sabes como é… têm sempre mais mão nos miúdos». Este comentário fez soar em mim um alerta sobre as representações e crenças que este comentário revela. No fundo, atribui aos homens a competência de melhor liderar e gerir os comportamentos da turma. Não é a primeira vez que ouço este tipo de comentários, e parece-me que se atribui mais facilmente a característica de «não ter mão na turma» a uma mulher do que a um homem.

A partir desta situação, pus-me a pensar sobre o papel que nós, psicólogos/as, devemos ter na não disseminação deste tipo de estereótipos, quer nas nossas relações pessoais, quer nas profissionais.

Nem sempre paramos para pensar no impacto das palavras que escolhemos no nosso quotidiano profissional, por exemplo nos e-mails, documentos produzidos, reuniões, anúncios de emprego e na forma como falamos com colegas e clientes. No entanto, a linguagem é um reflexo da sociedade em que vivemos e um instrumento através do qual construímos significados e representações. Ou seja, as palavras que utilizamos podem reforçar ideias preconcebidas sobre as pessoas, as suas capacidades, os seus papéis sociais e os lugares que se espera que ocupem. Isto aplica-se não só às questões de género, mas também de idade, origem étnica, orientação sexual, deficiência, condições de saúde ou características pessoais e sociais.

Não existem palavras perfeitas quando se quer adotar uma linguagem inclusiva. Existe, sim, a capacidade de estar atento/a à forma como comunicamos, reconhecendo que a linguagem evolui e que podemos melhorar progressivamente a forma como comunicamos. Existem orientações como:

  • Questionar o uso sistemático do masculino genérico (ex.: em vez de «os colaboradores da organização», utilizar «as pessoas que trabalham na organização» ou «a equipa»)
  • Respeitar a identidade e a forma como cada pessoa se identifica (ex.: reconhecer que cada pessoa deve ser tratada pelo nome com que se identifica)
  • Evitar expressões que reduzam as pessoas a uma condição ou característica (ex.: em vez de «o diabético», podemos adotar «pessoa com diabetes»)
  • Questionar estereótipos presentes na comunicação profissional (ex.: será que esperamos que as pessoas assumam diferentes tarefas, em função da idade?)
  • Rever anúncios de emprego e práticas de gestão de carreira (ex.: as oportunidades são comunicadas e avaliadas de forma justa?)
  • Atentar nas imagens e na comunicação visual (ex.: que grupos e de que forma são representados)
  • Assegurar clareza e acessibilidade (ex.: tentamos criar mensagens acessíveis para pessoas que utilizam leitores de ecrã?)

As palavras que utilizamos podem reforçar ideias preconcebidas sobre as pessoas, as suas capacidades, os seus papéis sociais e os lugares que se espera que ocupem.

Este trabalho não termina na individualidade do/a psicólogo/a; deve ser um trabalho extensível à organização, no sentido de promover a compreensão e utilização de práticas inclusivas, nomeadamente ao nível da comunicação. O/a psicólogo/a pode contribuir, por exemplo, através da revisão das práticas de comunicação, da identificação de estereótipos na organização do trabalho, na promoção de ações de formação e na definição, na implementação de práticas inclusivas, na criação de anúncios de emprego mais inclusivos, em práticas de gestão de carreira livres de estereótipos e de enviesamentos e na gestão de situações em que alguém se sente desrespeitado/a.

Nos nossos contextos de trabalho, promover uma linguagem inclusiva é um passo importante para construir ambientes profissionais mais respeitadores da diversidade, combater a estigmatização e a discriminação e promover a igualdade e a diversidade.

Para aprofundar

Curso e-learningA Utilização de Linguagem Inclusiva em PsicologiaValorizar.me, 30 horas, 15 créditos

Ler também

Recursos consultados e para saber mais sobre este tema

Abranches, G. (2009). Guia para uma linguagem promotora da igualdade entre mulheres e homens na Administração Pública. Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género. https://www.cig.gov.pt/siic/2012/12/guia-para-uma-linguagem-promotora-da-igualdade-entre-mulheres-e-homens-na-administracao-publica/

American Psychological Association. (2020). Publication manual of the American Psychological Association (7th ed.). https://doi.org/10.1037/0000165-000

American Psychological Association. (n.d.). Bias-free language. APA Style. https://apastyle.apa.org/style-grammar-guidelines/bias-free-language

European Institute for Gender Equality. (2019). Toolkit on gender-sensitive communication. Publications Office of the European Union. https://doi.org/10.2839/93859

Leal, D., Freitas, J. P., Magalhães, S., & Matias, M. (2023). Guia para a utilização de linguagem inclusiva. Universidade do Porto, Projeto RESET. https://www.up.pt/fpceup/pt/a-fpceup/inclus%C3%A3o-e-diversidade/guia-para-a-utiliza%C3%A7%C3%A3o-de-linguagem-inclusiva/

Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2021). Manual de linguagem inclusiva – Conselho Económico e Social [Contributo científico da OPP]. https://recursos.ordemdospsicologos.pt/files/artigos/manual_de_linguagem_inclusiva_conselho_econ__mico_e_social.pdf

Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2026, 6 de março). Policy brief: Recomendações para uma educação inclusiva. https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/noticia/6121

Ordem dos Psicólogos Portugueses. (n.d.). A utilização de linguagem inclusiva em Psicologia [Formação e-learning, Valorizar.me]. https://dpc.ordemdospsicologos.pt/courses/show/7773.html?id=7773