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A tua carreira é sustentável? Ou estás apenas a aguentar-te?

A carreira não é uma escada: é um ecossistema que tem que ser sustentável

Durante muito tempo, falar de carreira era quase como descrever uma escada: entrávamos no primeiro degrau, subíamos com dedicação, acumulávamos responsabilidades e, idealmente, chegávamos ao topo. De preferência sem escorregar, sem mudar de escada e sem questionar demasiado quem a tinha colocado ali.

A realidade profissional atual, porém, é bastante menos linear.

A literatura recente sobre gestão da carreira não tem apresentado tantas teorias completamente novas como poderíamos imaginar, sobretudo tendo em conta as profundas alterações económicas, tecnológicas e laborais dos últimos tempos. O que está a acontecer é uma reformulação profunda da forma como pensamos as carreiras. Estas deixam de ser entendidas apenas como uma sequência de promoções ou decisões individuais e passam a ser analisadas como percursos influenciados pela saúde, pelas relações, pela identidade, pelas organizações, pelas transições de vida e pelo próprio contexto social e económico.

Neste panorama, um dos conceitos com maior robustez científica é o de carreira sustentável.

Mas sustentável não significa «apenas» continuar empregado

Quando ouvimos a palavra «sustentabilidade», é provável que pensemos em reciclagem, alterações climáticas ou naquela garrafa reutilizável que pretendíamos levar para todo o lado, mas que frequentemente fica em casa.

Aplicada à carreira, a sustentabilidade refere-se à capacidade de manter, ao longo do tempo, uma trajetória profissional que preserve diferentes dimensões da vida da pessoa.

Uma carreira sustentável deverá permitir conservar a saúde física e psicológica, a capacidade de trabalho, o sentimento de significado, a produtividade, a aprendizagem, a empregabilidade e um equilíbrio minimamente razoável com as restantes áreas da vida.

Dito de outra forma: não basta conseguir continuar a trabalhar. Importa perceber a que custo continuamos a fazê-lo.

Uma pessoa pode ser altamente produtiva e, simultaneamente, encontrar-se emocionalmente esgotada. Pode ter um percurso profissional reconhecido e sentir que perdeu qualquer ligação com aquilo que faz. Pode continuar «empregável», mas já não dispor de tempo, energia ou disponibilidade psicológica para «viver a vida» fora do trabalho.

Nenhum destes cenários parece sustentável, ainda que possa parecer bem num currículo ou numa publicação cuidadosamente editada no LinkedIn.

O ajustamento entre a pessoa e a carreira é dinâmico

Um dos contributos mais relevantes desta abordagem é reconhecer que uma carreira adequada hoje pode não ser adequada daqui a cinco anos.

As necessidades, os valores, a saúde, as responsabilidades familiares, as condições organizacionais e o mercado de trabalho mudam. Nós também mudamos, por muito que aquele plano de carreira elaborado aos 25 anos estivesse impecavelmente formatado e absolutamente fechado.

Por isso, o ajustamento entre a pessoa e a sua carreira não deve ser entendido como uma decisão tomada uma vez e para sempre. É um processo contínuo de avaliação e adaptação.

Uma oportunidade profissional pode ser estimulante numa determinada fase da vida e tornar-se insustentável noutra. Um trabalho que anteriormente oferecia sentido pode deixar de o fazer. Uma função confortável pode começar a limitar a aprendizagem ou a empregabilidade futura.

Mudar de direção, redefinir prioridades ou procurar novas condições não significa necessariamente fracassar. Muitas vezes, significa conseguir ler os sinais antes de o corpo, a saúde mental ou a vida pessoal enviarem uma notificação com prioridade máxima.

Da progressão rígida à revisão periódica

Na prática, gerir uma carreira sustentável implica substituir os planos excessivamente rígidos por momentos periódicos de reflexão.

Em vez de perguntarmos apenas «qual é o próximo passo?», talvez devamos começar por perguntar:

Esta trajetória continua a ser saudável, significativa, viável e compatível com a vida que quero ter?

Esta mudança de pergunta pode parecer pequena, mas altera profundamente o foco. A carreira deixa de ser uma corrida em direção a um destino abstrato e passa a ser um percurso que precisa de ser monitorizado, ajustado e, ocasionalmente, recalculado.

Tal como acontece com o GPS, recalcular a rota não significa que estejamos perdidos. Significa apenas que percebemos que existe uma forma melhor, ou mais sustentável, de chegar onde queremos. Porque uma carreira verdadeiramente bem-sucedida não é apenas aquela que nos leva mais longe, mas aquela que nos permite continuar inteiros ao longo do caminho.