
Escolher ser profissional de Psicologia parte, muitas vezes, da vontade de compreender, escutar e apoiar outras pessoas e da curiosidade de o fazer conosco. Ao longo do percurso académico e da experiência profissional, aprendemos a reconhecer sinais de sofrimento, a formular hipóteses sobre cada caso, a respeitar os ritmos das pessoas que passam por nós, a trabalhar a vulnerabilidade das mesmas e a valorizar o primeiro passo na jornada de uma saúde mental mais saudável: procurar ajuda. Ainda assim, enquanto profissional de saúde mental, quando se trata de dar este passo, nem sempre a decisão é tão clara quanto nos parece quando olhamos através do outro.
Para muitos profissionais de Psicologia, recorrer a consultas de psicoterapia ou até de psiquiatria traz dilemas do âmbito pessoal e vieses do espetro profissional: “que técnicas já conheço que posso utilizar para ultrapassar isto?”, “se preciso de ajuda, como posso continuar a ajudar os outros?”, “isto coloca em causa a minha competência?”. Embora conectem os espaços pessoal e profissional, são questões do cerne humano: conhecer a teoria e modelos de intervenção não nos torna automaticamente imunes à necessidade da sua utilização.
Saber nomear os sintomas de uma perturbação de ansiedade, da escada que leva ao burnout, das fases do luto ou de como surgem processos cognitivos de evitamento não significa que consigamos, sozinhos/as, processar aspetos e experiências de vida que se encontram com a nossa profissão a meio caminho. Da mesma forma, compreender teoricamente a importância dos limites e do autocuidado não garante que seja fácil implementá-los na nossa própria prática profissional, quando existe uma agenda laboral para dar resposta e uma vida pessoal que exige presença.
Dentro dos recursos que estão disponíveis a profissionais de Psicologia, e que se complementam, importa reconhecer que não são equivalentes: cada um tem a sua função e objetivo. A supervisão e a intervisão são espaços fundamentais de desenvolvimento profissional, reflexão ética e melhoria da prática profissional. Não substituem, contudo, a psicoterapia quando está em causa o processamento cognitivo e/ou emocional de questões pessoais. Do mesmo modo, uma consulta de psiquiatria não deve ser entendida como último recurso, fracasso ou sinal de incapacidade. Este recurso pode ser compreendido como uma possibilidade, por vezes necessária, de avaliação e acompanhamento especializado, quando clinicamente indicado.
Na Psicologia, o autocuidado não é apenas um ato individual de amor próprio, particularmente quando a disponibilidade pessoal, a atenção, a empatia, a capacidade de juízo ético e a capacidade de estabelecer limites fazem parte da qualidade da intervenção. Por isso mesmo, reconhecer as nossas próprias necessidades, do ponto de vista psicológico, pode também ser uma expressão de responsabilidade profissional. Esta pode devolver ao cliente um profissional mais humilde, mais humano e com maior respeito pelo seu caminho terapêutico.