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As boas ideias não conhecem fronteiras: 4 exemplos para inovar em Portugal

Inovar em Psicologia não significa, necessariamente, inventar algo que nunca ninguém imaginou. Muitas vezes, inovar começa por observar o que está a ser feito noutros contextos, perceber que problema determinada solução procura resolver e refletir sobre como poderia certa ideia ser adaptada à realidade portuguesa.

E essa observação nem sempre acontece num congresso, numa formação ou através de um artigo científico. Viajar, mesmo quando o objetivo é simplesmente descansar, também nos expõe a outras formas de pensar, organizar serviços e responder às necessidades das pessoas. Um espaço diferente, um projeto comunitário, a forma como determinado serviço funciona ou até uma conversa ocasional podem despertar ideias que levamos connosco para casa. Claro que isto não significa regressar de férias e querer importar tudo o que vimos, mas manter alguma curiosidade sobre o que nos rodeia pode ser uma fonte interessante de aprendizagem profissional. Para quem está a iniciar uma carreira em Psicologia, olhar para práticas internacionais pode abrir possibilidades para prestar serviços, criar projetos ou estabelecer parcerias de formas diferentes.

Um exemplo vem do Canadá. A rede What’s Up Walk-In, em Toronto, disponibiliza apoio psicológico sem marcação e sessões únicas, focadas numa necessidade específica. Isto não significa assumir que “uma sessão resolve tudo”, mas reconhecer que algumas dificuldades podem beneficiar de respostas breves e orientadas. A investigação sobre intervenções de sessão única tem, aliás, identificado resultados promissores em determinados problemas e populações, embora a adequação ao caso continue a ser essencial. Neste caso a pergunta é simples: existem necessidades na minha realidade que poderiam beneficiar de uma consulta pontual ou de uma sessão de orientação?

No Reino Unido, os NHS Talking Therapies combinam, em alguns casos, acompanhamento profissional com recursos digitais, programas online e guided self-help. A tecnologia não substitui o psicólogo, mas pode prolongar o trabalho para além dos 50 ou 60 minutos de consulta. Exercícios, materiais psicoeducativos ou ferramentas digitais podem promover autonomia e continuidade entre sessões.

Nos Estados Unidos, a University at Buffalo adotou outro princípio interessante, onde leva o apoio psicológico até onde as pessoas já estão, integrando profissionais de saúde mental em diferentes unidades académicas e no departamento desportivo. Isto convida-nos a pensar para além do clássico “abrir gabinete e esperar que as pessoas apareçam”, pois escolas, empresas, clubes, associações ou projetos comunitários podem ser espaços de parceria.

Também o próprio setting da intervenção pode ser questionado. A walk-and-talk therapy, por exemplo, combina caminhada e intervenção psicológica. A evidência ainda é limitada, mas existem resultados preliminares positivos quanto à sua aceitabilidade e potencial benefício. Não significa trocar automaticamente o consultório por um parque ,, principalmente num dia de chuva em dezembro, mas lembra-nos que até o setting pode ser repensado.

Ainda assim, perante uma ideia que consideramos interessante transportar para a nossa realidade, devemos questionar-nos:

1. Que problema procura resolver?

2. Existe essa necessidade no meu contexto?

3. Há evidência que sustente a abordagem?

4. É adequada à população?

5. Respeita os princípios éticos, deontológicos e legais?

6. Posso começar em pequena escala, avaliar e ajustar?

Isto porque, em alguns casos, ser “inovador” não é sinónimo de “eficaz”. E aquilo que funciona muito bem noutro país, com outra população, pode não funcionar da mesma forma em Portugal.

Olhar para fora não é copiar, mas observar o que já está a ser feito, perceber porque resulta e pensar no que pode, ou não, fazer sentido no nosso contexto. Num mundo em que inovar parece cada vez mais difícil, e em que, às vezes, dá mesmo a sensação de que alguém já pensou em tudo antes de nós, provavelmente com um nome melhor e um site mais bonito, talvez seja mais útil mudar a pergunta para: que problemas encontro no meu dia a dia, como estão outros psicólogos a responder a desafios semelhantes e o que posso aprender com essas experiências?

No fundo, nem sempre precisamos de inventar a roda. Às vezes, basta perceber se ela faz sentido para o caminho que queremos percorrer, e evitar complicar aquilo que, afinal, já tinha uma boa solução.