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A multipotencialidade em Psicologia: O conceito de slashing e a construção de carreira na era da gig economy

Durante anos ouvimos falar da transformação digital, da robotização, da flexibilidade laboral, da importância do equilíbrio entre vida pessoal e profissional e, mais recentemente, do crescimento da gig economy, um modelo baseado em trabalho por projeto, independente e de cariz temporário.

Cada vez mais profissionais optam por não se vincularem a instituições/empresas, valorizando mais a sua liberdade de atuação, a sua autonomia, a gestão da sua carreira e a possibilidade de escolherem os projetos em que se envolvem. Este modelo atrai nomeadamente trabalhadores qualificados, como é o caso dos Psicólogos.

O modelo tradicional de «emprego para a vida» tem dado lugar, nos últimos tempos, a uma abordagem em que o desenvolvimento de competências, os desafios constantes e a valorização da vida pessoal estão no centro das decisões de carreira, especialmente entre as novas gerações. Procura-se, assim, um grau de controlo para desenhar um percurso profissional com significado, autonomia e flexibilidade.

É precisamente neste ponto de viragem que surge o conceito de slashing: cultivar múltiplos talentos, paixões e fontes de rendimento, contribuindo para uma maior realização profissional e pessoal. Um profissional slasher é aquele que se recusa a limitar a uma única gaveta profissional e a uma trajetória de carreira linear. Em vez de ser apenas psicólogo clínico, escolhe ser psicólogo clínico/formador/consultor na área forense/consultor em projetos sociais/consultor organizacional, por exemplo, naturalmente que, com a formação específica e adequada para essa multiplicidade de papéis, que deixa de ser entendida como «instabilidade» para passar a ser entendida como «escolha estratégica».

Ser um profissional slasher em Psicologia permite evidenciar uma multipotencialidade de competências, acelerar a sua aprendizagem ao aprofundar diferentes contextos de intervenção, evitar a monotonia através de desafios diversificados e, acima de tudo, assumir as rédeas do seu próprio trabalho. Trata-se de colocar a carreira ao serviço da vida pessoal, e não o oposto, respondendo com agilidade às exigências de um mercado em constante mudança.

Para um psicólogo que decide adotar o modelo de trabalho slasher, o maior erro é limitar a sua visão à atuação numa única área específica. Apostar no desenvolvimento profissional em vários domínios de intervenção e construir uma carreira independente exige aprender a traduzir o «saber psicológico» em soluções práticas e modulares para o mercado de trabalho. Deste modo, diversificar o portefólio de serviços enriquece a própria prática do psicólogo, que deixa de «vender» apenas «horas de consulta» e passa a disponibilizar «projetos de valor». Esta mudança de posicionamento é o que transforma o conhecimento académico numa carteira de serviços sustentável e diversificada.

Dominar a teoria e a prática psicológicas é apenas meio caminho para quem escolhe a consultoria independente. Para sobreviver e prosperar na era da gig economy, o psicólogo precisa de «vestir» o papel de gestor do seu próprio negócio, o que exige, ao mesmo tempo, o desenvolvimento de competências transversais que raramente são ensinadas na universidade, mas que são fundamentais para garantir a sustentabilidade da carreira. Para construir uma base sólida como trabalhador independente, existem três pilares de competências que devem ser desenvolvidos de forma consciente: a Literacia Financeira e Administrativa – gerir uma carreira por projetos significa lidar com rendimentos flutuantes, por isso é essencial aprender a calcular o valor/hora ou o orçamento de um projeto de forma justa e lucrativa, compreender o funcionamento dos recibos verdes, gerir retenções na fonte, IVA e planear uma almofada financeira para os meses de menor atividade; a Proposta de Valor – saber comunicar de forma clara e acessível as mais-valias que poderá trazer para os seus clientes; e o Networking/Prospeção – construir uma rede de contactos sólida não se resume a distribuir cartões, mas, sim, a criar relações de confiança mútua. Participar ativamente em eventos, colaborar em grupos de intervisão e utilizar plataformas como o LinkedIn para partilhar conhecimento são estratégias indispensáveis para que os potenciais clientes se lembrem do seu nome quando surgir uma oportunidade.

Importa salientar também que a flexibilidade e a liberdade proporcionadas pelo mercado independente que a gig economy veio introduzir trazem consigo uma responsabilidade acrescida. O empreendedorismo e a inovação na carreira nunca devem sobrepor-se ao rigor científico e aos deveres éticos da profissão. Manter estes limites bem definidos não é uma barreira ao sucesso comercial, é, na verdade, o maior selo de qualidade que um Psicólogo, como consultor independente, pode apresentar no mercado de trabalho.

A gig economy e o modelo de trabalho slasher não são tendências passageiras, mas, sim, o reflexo de um mercado que cada vez mais valoriza a agilidade, a autonomia e a diversidade. Para os Psicólogos, este cenário representa uma oportunidade única de libertação dos moldes tradicionais de carreira. Permite desenhar um percurso verdadeiramente personalizado, cruzando a Psicologia com a inovação, a consultoria e o empreendedorismo.

Assumir o controlo da própria carreira exige coragem para aprender o que está para além da Psicologia, disciplina para gerir o próprio negócio e um compromisso inabalável com a ética. O retorno surge na forma de uma carreira dinâmica, imune à monotonia e profundamente alinhada com as prioridades individuais de equilíbrio e de realização. Estudos sobre o bem-estar de trabalhadores independentes revelam que, apesar dos desafios iniciais de estabilidade, a autonomia e a flexibilidade estão associadas a elevados níveis de realização psicológica. Ser um profissional slasher em Psicologia não representa a perda da identidade do Psicólogo, mas sim a sua expansão. Num mercado volátil e em constante transformação, a segurança já não reside num vínculo laboral estanque, mas sim na capacidade de investir no seu desenvolvimento profissional contínuo, mobilizar competências e gerar valor em múltiplos contextos. Abraçar com ética e com visão estratégica a era da gig economy é assumir que a Psicologia é moldável, dinâmica e indispensável em todas as esferas da sociedade moderna.