
Iniciamos o mês de junho a assinalar o Dia Mundial da Criança, que pretende celebrar a aprovação da Declaração Universal dos Direitos da Criança. Neste mês assinalaram-se também outras datas importantes na área da infância, o Dia Internacional das Crianças inocentes vítimas de agressão, o Dia Internacional do Brincar e o Dia Mundial contra o Trabalho Infantil, decretadas pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Contudo, este ano, o mês ficou marcado por duas notícias particularmente impactantes: uma madrasta que alegadamente matou a enteada e um progenitor que se atirou da varanda com a filha. E desta forma atingimos o número quatro de crianças falecidas por violência doméstica no presente ano. Situações como estas geram indignação, tristeza e um inevitável questionamento sobre o que pode ser feito para prevenir que continuem a acontecer.
Importa recordar que a celebração do Dia Mundial da Criança pretende sensibilizar e reforçar a ideia de que as crianças têm direitos, necessitam de ser protegidas e que o seu bem-estar é o mais importante. A realidade atual demonstra que ainda não estamos a garantir o pleno cumprimento dos princípios consagrados na Declaração Universal dos Direitos da Criança. E pese embora grande parte desta obrigação pertença ao Estado e à necessidade de implementação de políticas públicas e estratégias de intervenção e prevenção efetivas para colmatar este flagelo. Existe também uma responsabilidade coletiva que cabe a cada um de nós, enquanto membros da sociedade e, particularmente, enquanto psicólogos nos diferentes contextos de intervenção.
Muito embora a intervenção efetiva na violência doméstica seja realizada por profissionais especializados na área, e sem qualquer desvalorização da importância dessa especialização, a verdade é que a promoção do bem-estar infantil e a prevenção da violência podem atravessar diferentes contextos de exercício profissional da Psicologia. Ao longo da carreira, muitos psicólogos contactam com crianças, jovens, famílias ou adultos que apresentam sinais de sofrimento associados a experiências de violência, negligência ou adversidade. Por isso, desenvolver conhecimentos básicos sobre fatores de risco, sinais de alerta e estratégias de prevenção constitui uma competência relevante, independentemente da área de especialização.
Uma das formas de contribuir para esta prevenção passa pela capacidade de observação, e estar atento aos sinais que as crianças podem manifestar: alterações comportamentais, sinais emocionais persistentes, dificuldades relacionais, mudanças no desempenho escolar, ausência de cuidados básicos ou relatos que suscitem preocupação podem constituir indicadores que justificam uma atenção mais aprofundada. Naturalmente, nenhum destes sinais confirma, por si só, a existência de maus-tratos, mas pode representar uma oportunidade para compreender melhor a situação da criança e mobilizar os recursos adequados.
A prevenção também pode ser realizada junto de pais, futuros pais, famílias e comunidade, por exemplo:
- Aumentar a literacia sobre os impactos negativos e duradouros da violência, formas alternativas e eficazes de interagir e educar, sobre o que é expetável a nível comportamental e de desenvolvimento em cada etapa.
- Desenvolver e implementar programas de desenvolvimento de competências parentais.
- Implementação de estratégias de prevenção de violência e promoção do bem-estar e do desenvolvimento infantil saudável
Independentemente da área em que exercemos funções, podemos contribuir para ambientes mais seguros, relações mais saudáveis e contextos mais protetores para as crianças.
P.S. A OPP tem disponíveis os seguintes documentos sobre esta temática:
Exposição das crianças à violência interparental: Recomendações para psicólogos
Intervenção Psicológica com Crianças e Jovens no âmbito da Violência Doméstica