PsiCarreiras

logo-psicarreiras
Blog

E se eu não souber? O lugar da dúvida na construção da identidade profissional em Psicologia

Em Psicologia, reconhecer o que não sabemos pode não ser o oposto de competência. Ainda assim, a tomada de consciência do “não saber” determinada resposta deverá ser das questões mais difíceis de reconhecer enquanto profissional de Psicologia. Não porque esperemos ter respostas para tudo, mas porque, ao longo da nossa formação, vamos construindo a ideia de que ser competente implica saber o que fazer.

Estudamos, fazemos estágios, procuramos supervisão, investimos em formação e acumulamos experiência. E, ainda assim, chega inevitavelmente o momento em que nos deparamos com uma situação para a qual não existe uma resposta evidente. Um caso que não encaixa inteiramente na teoria que aprendemos. Uma escolha em que existem várias possibilidades de decisão. Uma intervenção cujo resultado não conseguimos antecipar.

Será comum, nestas situações, pensarmos, posteriormente: “Será que tomei a decisão correta?”.

A literatura tem vindo a mostrar que a forma como lidamos com a incerteza na prática profissional é influenciada pelas características individuais de cada profissional, mas também por fatores situacionais e contextuais que completam o espetro laboral. Talvez, por isso, a questão não seja aprendermos a eliminar a incerteza, mas, em vez disso, compreender o lugar que esta pode ocupar na nossa prática. Porque não ter a certeza não significa necessariamente não saber.

Ao longo da formação, procuramos muitas vezes a resposta certa. Na prática, somos chamados a construir respostas fundamentadas: integrar informação, considerar alternativas, reconhecer limites e tomar decisões mesmo quando não dispomos de todas as respostas.

É também neste processo que se constrói a nossa identidade profissional. Esta não se consolida num momento específico, nem termina quando concluímos uma determinada formação. É um processo contínuo, influenciado por experiências, relações e desafios que encontramos ao longo da carreira.

Talvez seja por isso que a supervisão assuma um papel tão importante. Pedir ajuda pode ser vivido como sinal de falta de competência, quando representa precisamente o contrário: reconhecer os limites do nosso conhecimento e procurar outros recursos para ser melhor profissional.

Ser autónomo não significa ter de decidir sem apoio. Deve significar saber quando precisamos de mais informação, quando devemos procurar supervisão ou quando uma decisão beneficia de ser pensada em conjunto.

Por isso, a maturidade profissional pode não estar na completude do momento em que já não questionamos o nosso saber, mas sim em questioná-lo como parte natural do desenvolvimento profissional contínuo e não como evidência de que não somos suficientemente competentes.

Schubert, S., Buus, N., Monrouxe, L., & Hunt, C. (2023). The development of professional identity in clinical psychologists: A scoping review. Medical Education, 57(7), 612–626.
Schubert, S., Buus, N., Monrouxe, L., & Hunt, C. (2023). Interrogation in clinical supervision sessions: Exploring the construction of clinical psychology trainees’ professional identities. Social Science & Medicine, 325, 115887.
Yap, A., Johanesen, P., & Walsh, C. (2023). Moderators uncertainty tolerance (UT) in healthcare: a systematic review. Advances in Health Sciences Education, 28, 1409–1440.