
As redes sociais trazem-nos assuntos que, noutros tempos nos passariam despercebidos. Por um lado, isso faz com que possamos disseminar mais facilmente ideias, promover a literacia num sem-número de temáticas, ter uma voz ativa e maior alcance profissional. Por outro, somos expostos (e de uma forma enviesada, por algoritmos cada vez mais sofisticados) a temas indesejados, a opiniões polarizadas e instigadoras não de discussões produtivas, mas de ódio e promotoras de desinformação.
Ao mesmo tempo, a posição por detrás de um ecrã leva a que muitas pessoas emitam os seus pensamentos de formas que nunca o fariam frente-a-frente a outra pessoa (o “efeito de desinibição online”, tal como descrito por Suler, 2004), levando a que os fenómenos de cyberbullying sejam exponenciados.
Numa nota positiva, os psicólogos são, cada vez mais, chamados a intervir na esfera mediática, bem como eles próprios têm redes sociais profissionais onde mais facilmente veiculam os seus pensamentos, ideias e posições face à atualidade.
Assim, é mais frequente o confronto com situações que colocam dilemas éticos e morais, já que a pressão (direta ou indireta) para se posicionarem face a casos concretos, de forma rápida, e por vezes em temáticas nas quais não têm conhecimento ou competência suficiente, criando assim desafios acrescidos para uma prática responsável.
“Tu que és psicólogo/a, o que achas disto?” – pode ser este o familiar início de uma tentação para que emitamos uma resposta, como psicólogos, sobre algo em relação ao qual podemos não saber o suficiente, ou não ter preparado uma opinião profissional suficientemente cuidada. Deste modo, é perfeitamente legítimo (e, em muitos casos, recomendável) responder: “não tenho uma opinião formada sobre esse assunto para me pronunciar enquanto psicólogo/a”.
Para navegar estas (muito naturais) dúvidas, a nossa Ordem profissional tem vários recursos ao nosso dispor. Por exemplo, podemos consultar alguns pareceres da Comissão de Ética (ebook completo aqui), nomeadamente os pareceres n.º 56 e 61, em que temos fonte para reflexão e fundamentação da nossa posição seguindo o que o Código Deontológico nos informa.
De forma prática, estas orientações podem ser resumidas em alguns princípios:
- Pronunciar-se apenas dentro da área de competência (formação e experiência);
- Comunicar com clareza e linguagem ajustada, evitando juízos de valor;
- Ponderar o impacto público das declarações, prevenindo danos;
- Proteger a privacidade, evitando referências a casos concretos ou especulação.
Existem, inclusivamente, Recomendações para a Relação dos/as Psicólogos/as com os (Social) Media, lançadas pela OPP em 2022, um documento muito completo onde existe, até, um capítulo relacionado com a forma como os psicólogos podem, e devem, publicitar os seus serviços em psicologia através dos (social) media.
Lá está, não há como negar as mais-valias da esfera mediática, e para a promoção da nossa carreira e prática profissional faz sentido haver presença nesta. Contudo, isso não nos isenta de responsabilidade e preparação para melhor enfrentar a tentação de opinar sobre o que não conhecemos, de forma lesiva para os outros (e para nós mesmos), e que contribuam para debates pouco construtivos ou informados.
Além disso, os psicólogos têm um importante papel no combate à polarização e à disseminação da desinformação, nomeadamente através da promoção de literacia psicológica, do pensamento crítico e de uma comunicação pública baseada em evidência.