
As alterações climáticas deixaram de ser um conceito abstrato para se tornarem numa realidade cada vez mais presente no quotidiano. Basta uma breve pesquisa sobre os acontecimentos do primeiro semestre deste ano para encontrarmos um número significativo de notícias preocupantes: ondas de calor históricas na Europa, tempestades intensas na região do Mediterrâneo e na Península Ibérica, episódios de calor extremo na Ásia, inundações no Golfo da Guiné, entre muitos outros. Se olharmos para uma realidade mais próxima, encontramos exemplos como a tempestade Kristin e os milhares de incêndios registados em Portugal e reportados pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
Este cenário, associado à perda de biodiversidade, à escassez de recursos naturais e à crescente preocupação com a sustentabilidade, tem vindo a transformar as economias, as organizações e o mercado de trabalho, em todo o mundo.
Surgem novas profissões e transformam-se profissões já existentes, numa transição para modelos de desenvolvimento mais sustentáveis impulsionados por políticas internacionais como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas e o European Green Deal.
Este cenário abre espaço para um novo conceito: carreiras verdes (green careers), entendido como o conjunto de percursos profissionais que contribuem para a preservação do ambiente, a utilização sustentável dos recursos naturais e a promoção de economias de baixo carbono. A dimensão ecológica passa a constituir uma competência transversal ao desenvolvimento de carreira.
Uma carreira verde não é definida apenas pelo setor onde se trabalha, mas pelo impacto que o trabalho produz na sustentabilidade das pessoas, das organizações e da sociedade. Há autores que defendem que existem profissões diretamente ligadas à proteção ambiental (por exemplo, gestão de resíduos, energias renováveis ou conservação da natureza), mas qualquer profissional pode incorporar práticas sustentáveis no seu trabalho.
Nesse sentido, destaco duas ideias centrais, que creio importantes para reflexão em torno deste tema:
1) Um psicólogo pode desenvolver uma carreira verde?
A resposta é claramente afirmativa.
Uma carreira verde não corresponde apenas ao exercício de um emprego verde. A sustentabilidade vai muito além da dimensão ambiental, integrando igualmente as dimensões social, económica e humana. Neste sentido, um psicólogo desenvolve uma carreira verde quando a sua intervenção promove o bem-estar das pessoas e das comunidades, contribui para a redução das desigualdades sociais, apoia processos de transição justa no mercado de trabalho, incentiva estilos de vida sustentáveis ou ajuda indivíduos e organizações a adaptarem-se às mudanças decorrentes da transição ecológica.
Em suma, a sustentabilidade pode ser promovida através da própria prática psicológica, sempre que esta contribui para o desenvolvimento de pessoas, organizações e comunidades mais resilientes, inclusivas e socialmente responsáveis.
2) A Psicologia pode ser uma profissão facilitadora da transição ecológica?
Também aqui a resposta é afirmativa.
Embora os psicólogos não desenvolvam diretamente soluções tecnológicas para os desafios ambientais, desempenham um papel essencial na preparação das pessoas para as mudanças que a transição ecológica implica. A transformação para uma economia mais sustentável traz consigo profundas alterações no emprego, nas competências profissionais, nas identidades ocupacionais e na forma como as pessoas atribuem significado ao trabalho.
Neste contexto, a Psicologia Vocacional pode assumir um papel estratégico ao promover escolhas de carreira que conciliem bem-estar individual, justiça social e sustentabilidade ambiental. Os psicólogos contribuem para esta transição quando apoiam trabalhadores cujas profissões se encontram em processo de transformação, orientam jovens para oportunidades profissionais emergentes na economia sustentável, promovem competências de adaptabilidade de carreira, ajudam os seus clientes a integrar valores ambientais nas decisões vocacionais, colaboram com organizações na promoção de culturas de trabalho sustentáveis e contribuem para processos de justiça social, assegurando que ninguém fica excluído da transição ecológica.
A orientação vocacional, passa a assumir um papel mais amplo na construção de sociedades mais justas, inclusivas e sustentáveis.
É precisamente neste enquadramento que surge o conceito de Green Guidance, uma das áreas mais inovadoras da Psicologia Vocacional contemporânea. Mais do que uma nova abordagem à orientação de carreira, o Green Guidance constitui uma proposta de transformação social, na qual o desenvolvimento das carreiras é entendido como um instrumento para promover, em simultâneo, o bem-estar das pessoas, das comunidades e do planeta.