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Quando o «fazer bem» não é suficiente: a autoexigência na identidade profissional do psicólogo

Artigo por
Sofia Cardoso

Entre o compromisso com a qualidade da intervenção e a pressão para corresponder a expetativas cada vez mais elevadas, onde termina o rigor e começa a exigência excessiva?

Ser psicólogo implica uma responsabilidade particular: trabalhamos com pessoas, analisamos o comportamento humano, lidamos com histórias de vida, com emoções e processos de mudança. Esta responsabilidade exige preparação, reflexão, atualização contínua e um compromisso ético com a qualidade da nossa prática profissional. É natural, por isso, que o «fazer bem» possa ser entendido não apenas como um objetivo, mas como uma exigência interna diária que orienta cada decisão.

Mas o que acontece quando essa necessidade de fazer bem se transforma numa necessidade constante de fazer melhor, de saber mais e de nunca falhar?

A autoexigência está profundamente ligada à identidade profissional do psicólogo. Queremos estar à altura da confiança que nos é depositada, tomar decisões fundamentadas, encontrar as melhores respostas e corresponder às expectativas de quem a nós recorre. Porém, estabelecemos, por vezes, padrões tão elevados que uma dúvida pode acabar por ser interpretada, por muitos, como falta de competência, uma dificuldade como uma insuficiência pessoal e um resultado menos positivo como uma falha.

A autoexigência nem sempre é visível para os outros. Acaba por se manifestar de uma forma muito individual, por exemplo, quando se sente a necessidade de rever constantemente decisões e procedimentos, quando se prepara uma sessão ou um processo de intervenção, quando se sente dificuldade em desligar das responsabilidades profissionais ou, até, quando sentimos que poderíamos ter feito mais. Pode também surgir na própria pressão para responder a múltiplas solicitações, para cumprir objetivos, produzir resultados ou encontrar soluções para situações mais complexas. Mesmo quando recebemos reconhecimento e valorização profissional, podemos sentir que não é suficiente.

Importa, por isso, distinguir o compromisso profissional da autoexigência excessiva.

O primeiro mobiliza-nos para a aprendizagem, para a reflexão crítica e melhoria contínua. A segunda pode prender-nos a uma procura de «perfeição» que dificilmente encontra «satisfação».

Ser um bom profissional em Psicologia não implica ser um profissional “perfeito”.

No exercício da Psicologia, esta distinção é especialmente importante. A incerteza faz parte do trabalho: nem sempre temos respostas imediatas, nem todas as intervenções produzem os resultados esperados e nem todas as situações dependem exclusivamente da nossa atuação. Reconhecer esta realidade não significa desvalorizar a responsabilidade profissional. Significa compreender que a qualidade do nosso trabalho, enquanto psicólogos, não se mede pela ausência de dúvidas ou pela capacidade de controlar todos os resultados. Talvez uma das maiores dificuldades seja permitirmo-nos ser profissionais em permanente desenvolvimento.

A formação contínua é essencial, mas não deve alimentar a ideia de que nunca sabemos o suficiente. A reflexão crítica é necessária, mas não deve transformar-se numa avaliação permanente (e muitas vezes «punitiva») sobre cada decisão, e a supervisão deve ser entendida como um espaço de desenvolvimento e não como a confirmação de «não competência».

Importa também reconhecer que, quando valorizamos apenas a produtividade, a disponibilidade permanente e a capacidade de responder a todas as exigências, podemos estar a contribuir para que a sobrecarga seja confundida com dedicação. É necessário criar contextos onde seja possível reconhecer limites, pedir apoio/orientação e aprender com as dificuldades, sem que isso comprometa o nosso sentido de competência.

Ser um bom profissional em Psicologia não implica ser um profissional «perfeito». Implica reconhecer a complexidade desta profissão, assumir a responsabilidade pelas decisões que tomamos e manter a disponibilidade para uma formação e atualização contínuas.

Ser psicólogo não significa deixar de ser pessoa. Por vezes, podemos sentir que, para sermos bons profissionais, temos de ser sempre equilibrados, emocionalmente disponíveis, seguros nas decisões, capazes de gerir qualquer situação e de manter uma postura de absoluta confiança. Como se demonstrar dúvidas, sentir cansaço, cometer erros ou precisar de apoio fossem sinais de menor competência. Mas não é assim.

Temos emoções e somos afetados por aquilo que vivemos profissionalmente.

Temos dúvidas e nem sempre encontramos respostas imediatas.

Temos limites, necessidades e momentos de maior vulnerabilidade.

Estamos em permanente aprendizagem e transformação.

Precisamos de relações de apoio, valorização e compreensão.

Reconhecer estas dimensões não nos torna menos competentes, nem significa permitir que tal interfira na nossa prática profissional; pelo contrário, deve ajudar-nos a desenvolver uma maior consciência de nós próprios e dos nossos limites, a olharmos de outra forma para a nossa identidade e para as dinâmicas da nossa atividade profissional, a reconhecer quando precisamos de apoio, a tomar decisões mais ponderadas e a exercer a profissão com uma maior responsabilidade ética.

Cultivar espaços de supervisão, de intervisão e de partilha é, por isso, uma necessidade.

Talvez o desafio passe por redefinirmos a forma como olhamos para a nossa identidade profissional — deixando de nos questionar apenas se estamos a fazer bem, para nos questionarmos se estaremos a cuidar bem da nossa própria relação com a profissão.

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