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O “fenómeno do impostor” e a tolerância à incerteza: uma reflexão sobre o desenvolvimento profissional em psicologia

A primeira consulta observada. A primeira consulta sem observação. O primeiro relatório assinado. A discussão de um caso em supervisão. Aquela formação que nos obriga a repensar tudo o que achávamos saber. A troca de impressões com o colega que nunca se engana e raramente tem dúvidas. Uma pergunta silenciosa: “Quanto tempo até perceberem que eu não devia estar aqui? Que na verdade não sei bem o que ando aqui a fazer?”

Para muitos estudantes de psicologia, psicólogos juniores (e psicólogos em diferentes momentos da carreira), estes pensamentos não são exceções, e podem surgir na ausência de erros reais ou dificuldades objetivas. A investigação sobre psicólogos em formação sugere que esta situação é comum durante a formação profissional. Por exemplo, num estudo com estudantes de mestrado em Psicologia, 23% apresentaram níveis elevados de “imposturismo” (Martin et al., 2024) (1). Uma investigação qualitativa com psicólogos clínicos em formação descreve o fenómeno como uma questão generalizada com impacto significativo no bem-estar e no desenvolvimento da identidade profissional (Horsley, 2025) (2)

A situação descrita costuma ser referida como “síndrome do impostor”. Mas será essa a melhor forma de a compreender? Na verdade, a designação originalmente proposta (Clance & Imes, 1978) (3) falava não em “síndrome do impostor”, mas em “fenómeno do impostor”, definido como “uma experiência interna intensa de falsidade intelectual” (“que parece ser particularmente prevalente e intensa em mulheres com elevado desempenho” … mas isso seria assunto para todo um outro texto).

Ora, estas duas expressões têm implicações diferentes. Quando falamos em “síndrome” estamos a remeter para um conjunto relativamente estável e não adaptativo de sintomas e caraterísticas individuais. Já o termo “fenómeno” sugere uma experiência psicológica potencialmente transitória, passível de surgir em determinados contextos e momentos. A pergunta deixa então de ser “qual é o problema com esta pessoa?” e passa a ser “o que é que está a acontecer neste contexto e neste momento para que surjam estes sentimentos de impostura?”.

Ou, aplicando aos psicólogos: que condições relacionadas com a intervenção psicológica ou com o desenvolvimento profissional em psicologia contribuem para que a experiência de impostura seja tão frequente neste grupo profissional?  Várias hipóteses:

Quando começa a ser “a doer”. A transição para a prática profissional tem uma implicação muito real: o nosso erro deixa de ser académico e passa a ter impacto sobre pessoas, que confiaram em nós e perante as quais temos responsabilidade. Neste contexto, é fácil revestir o nosso erro de um peso “moral”.

O contacto precoce com a complexidade. Muitos de nós somos atraídos para a psicologia devido a um desejo de compreender o funcionamento humano. Muitos de nós percebemos rapidamente que, face à complexidade do tema que escolhemos, quanto mais estudamos menos compreendemos. Acresce que, ao contrário do que acontece em outras áreas, em psicologia é-nos difícil dizer que uma resposta é inequivocamente certa (ou errada). Não há soluções na última página que nos permitam ganhar aquela confiança instantânea.

A natureza do nosso instrumento de trabalho. O psicólogo é um profissional que intervém através da relação. Muito da intervenção depende da forma como esta relação é estabelecida, e parte desta relação depende da pessoa do próprio psicólogo. Assim uma mesma intervenção pode ser feita de forma diferente por dois psicólogos diferentes sem que um seja menos competente que o outro. Ou seja, ao contrário do que acontece em outras áreas, em psicologia é-nos difícil dizer que um profissional é inequivocamente competente (ou incompetente). O “selo de qualidade” não surge de forma simples e imediata. Muitas vezes dependemos da nossa comunidade profissional para esse efeito. Porém…

A cultura de avaliação permanente. Poucas profissões avaliam simultânea e continuamente conhecimentos teóricos, competências técnicas, capacidades relacionais e caraterísticas pessoais. Embora extremamente útil, esta cultura de escrutínio pode alimentar a sensação de estar permanentemente em avaliação. Sendo que uma profissão construída sobre a reflexão crítica contínua dificilmente nos permite sentir plenamente competentes. Além disso…

A exposição à excelência. Muitos de nós – se tivermos sorte – fazemos o nosso caminho rodeados de colegas brilhantes, profissionais de referência, professores inspiradores, supervisores excelentes. A outra face da moeda é a probabilidade de deixarmos de nos comparar com a população geral e passarmos a comparar-nos apenas com indivíduos altamente competentes. Ou seja – mais uma vez: sentimentos de inadequação.

Ou seja… O paradoxo do desenvolvimento profissional em psicologia é justamente este: ele tende a desenvolver precisamente as qualidades que podem aumentar o fenómeno do impostor. Falamos, por exemplo, da sensibilidade à complexidade, do reconhecimento da incerteza, da reflexividade, da abertura à crítica, da consciência dos próprios limites…

Aqui chegados, trata-se de compreender como é que esta incerteza se traduz em nós. É uma dúvida que paralisa? Que nos leva a evitar decisões, a recusar desafios, a interpretar erros como provas de inadequação, a depender demasiado da validação externa? Ou é uma dúvida que estimula? Que nos permite manter a curiosidade, permanecer abertos à mudança, procurar ajuda quando necessário?

Trata-se, enfim, de passar a reconhecer a dúvida como parte integrante de uma prática reflexiva e não como prova de incompetência. De conseguir sustentar a incerteza sem colapsar na impotência.  A maturidade profissional passa muito por aprender a habitar este espaço. E talvez seja a partir daí que o “impostor” começa a perder parte do seu poder.

  1. Martin, J., Gonsalvez, C. J., Pickard, J. A., Deane, F. P., & Clark, O. (2024). Factor analysis of the Leary Impostorism Scale in professional psychology trainees. Journal of Psychologists and Counsellors in Schools, 34(4), 451–461. https://doi.org/10.1177/20556365241297475
  2. Horsley, E. (2025). Understanding the experience of the Impostor Phenomenon amongst trainee Clinical Psychologists: A qualitative analysis (Doctoral thesis, University College London). UCL Discovery. https://discovery.ucl.ac.uk/id/eprint/10214371
  3. Clance, P. R., & Imes, S. A. (1978). The Impostor Phenomenon in High Achieving Women: Dynamics and Therapeutic Intervention. Psychotherapy: Theory, Research & Practice, 15(3), 241–247