Artigo por
Rodrigo Diniz
Em 2022 o futuro do trabalho discute-se sobretudo a propósito do teletrabalho, da automação e das plataformas. Fala-se menos de uma pergunta mais antiga e mais útil, a de saber que condições de trabalho mantêm as pessoas saudáveis e produtivas e quais as desgastam. Como é nessa pergunta que a ciência psicológica tem mais para dar, qualquer conversa sobre o futuro do trabalho devia começar por ela.
Na investigação que há décadas procura responder-lhe, uma das referências é o modelo exigência-controlo, proposto por Robert Karasek em 1979, segundo o qual o desgaste no trabalho resulta da combinação entre exigências elevadas e pouca margem de decisão sobre a própria tarefa. As revisões que se seguiram confirmaram com clareza o peso das exigências e, com menos força, o da autonomia, embora a ideia de que uma amortece a outra tenha tido apoio menos consistente. Mantém-se a conclusão prática de que dar às pessoas margem para decidir como fazem o seu trabalho previne o desgaste e está ao alcance de qualquer organização.

A Lei n.º 102/2009, que estabelece o regime jurídico da segurança e saúde no trabalho, põe os fatores de risco psicossociais ao lado dos agentes químicos, físicos e biológicos. Entre os princípios gerais de prevenção manda assegurar que a exposição a esses fatores não constitui risco para a saúde e adaptar o trabalho às pessoas para atenuar a monotonia e a repetição e reduzir esses riscos. As medidas de prevenção devem corresponder ao resultado da avaliação de riscos, que é por onde começa o trabalho de um psicólogo numa organização.
O inquérito da EU-OSHA às empresas, o ESENER, registava em 2019 a pressão dos prazos em 45% dos locais de trabalho da União. Portugal estava entre os quatro países onde a dificuldade mais referida para lidar com estes riscos era a falta de sensibilização do pessoal, o que faz da informação e da formação um primeiro passo evidente.
Avaliar riscos psicossociais com instrumentos validados e apoiar a organização do trabalho são tarefas técnicas em que a Psicologia tem um contributo próprio dentro das organizações.
Para os psicólogos, isto abre um campo de trabalho que vai muito além de acompanhar quem já adoeceu. Avaliar riscos psicossociais com instrumentos validados e apoiar a organização do trabalho são tarefas técnicas em que a Psicologia tem um contributo próprio dentro das organizações, feitas em conjunto com a medicina do trabalho e os técnicos de segurança.
Num ano em que tanto se discute o futuro do trabalho, um psicólogo numa organização pode começar por saber se os riscos psicossociais da sua equipa já foram avaliados, quando e com que instrumento.
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