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Uma psicologia mais diversificada

Artigo por
Rodrigo Diniz

Uma ciência que pretende explicar o comportamento humano só o explica bem na medida em que estuda e serve a variedade de pessoas que existe, e por isso a diversidade na Psicologia é, antes de mais, uma questão de qualidade.

Joseph Henrich, Steven Heine e Ara Norenzayan mostraram em 2010 até que ponto a investigação em Psicologia assenta numa fatia estreita da humanidade, a que chamaram WEIRD, sigla inglesa para sociedades ocidentais, escolarizadas, industrializadas, ricas e democráticas. Partiram, entre outros, de um levantamento de Jeffrey Arnett, segundo o qual 96% dos participantes dos estudos publicados entre 2003 e 2007 em seis das principais revistas da American Psychological Association vinham de países ocidentais industrializados, onde vive cerca de 12% da população mundial.

Mostraram também que alguns resultados tidos como universais variam entre culturas, como a suscetibilidade a certas ilusões visuais, já documentada nos anos sessenta por Segall, Campbell e Herskovits. Na ilusão de Müller-Lyer, em que duas linhas iguais parecem ter comprimentos diferentes conforme as setas nas pontas apontam para dentro ou para fora, os estudantes americanos estavam entre os mais enganados e os San, caçadores-recoletores do Kalahari, quase não eram afetados. Encontraram variação semelhante na cooperação e na forma como as pessoas se descrevem, e concluíram que as amostras WEIRD são muitas vezes casos atípicos e estão entre as menos indicadas para generalizar sobre a espécie humana. Pediram por isso que a disciplina tratasse com menos ligeireza as perguntas sobre a natureza humana.

Perceber com que populações foi construído aquilo que usamos e se incluiu pessoas como as que temos à frente faz parte do mesmo rigor que já aplicamos a qualquer outra fonte de erro.

O trabalho de Henrich e colegas trata da diversidade das pessoas que a Psicologia estuda e serve e essa é uma questão de validade. A de quem faz esse trabalho é mais difícil de medir, mas é razoável esperar que uma profissão com formações e experiências variadas repare mais cedo quando um instrumento ou uma intervenção não serve a pessoa que tem à frente.

Em Portugal o Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo do SEF, publicado em junho de 2022, contava quase 700 mil cidadãos estrangeiros a residir no país em 2021, no sexto ano seguido de crescimento. Para quem trabalha em escolas, centros de saúde ou empresas, isto traduz-se numa pergunta prática, a de saber até que ponto o conhecimento da Psicologia reflete a população que hoje se acompanha.

Perceber com que populações foi construído aquilo que usamos e se incluiu pessoas como as que temos à frente faz parte do mesmo rigor que já aplicamos a qualquer outra fonte de erro.

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