
Para nós psicólogos, a relação profissional que estabelecemos com os nossos clientes é o nosso instrumento de trabalho. É na qualidade da relação estabelecida que assenta largamente o sucesso ou insucesso da intervenção psicológica. Da centralidade desta relação resulta então a enorme importância de o psicólogo a compreender profundamente, e de a proteger ativamente.
Ora, uma das caraterísticas fundamentais da relação profissional é a assimetria de poder que a carateriza. Essa assimetria existe:
- na relação, dado o conhecimento técnico-científico do psicólogo, o acesso deste a informação sobre o cliente e a sua capacidade de avaliação e interpretação dessa informação. Por estes motivos, o cliente pode, por exemplo, começar a acreditar que o psicólogo sabe mais sobre si do que ele sobre si próprio.
- através da relação, por via das consequências que a intervenção pode ter para o cliente, também em função das estruturas em que ambos estão inseridos. Aquilo que o psicólogo comunica ao cliente pode alterar a forma como este se compreende. Aquilo que o psicólogo comunica a outros interlocutores sobre o cliente pode alterar a forma como estes o compreendem e interagem com ele.
Esta assimetria de poder atravessa todos os contextos da prática do psicólogo, ainda que possa manifestar-se de forma diferente em cada um deles. Por exemplo:
- Num contexto clínico – uma formulação clínica pode ajudar alguém a organizar e validar uma experiência que antes parecia incompreensível e inaceitável. Mas também pode levar essa pessoa a passar a interpretar-se exclusivamente através daquela formulação e, por exemplo, a cristalizar uma identidade ou patologizar uma diferença.
- Num contexto educacional – uma avaliação ou um conjunto de recomendações psicopedagógicas podem contribuir para reconhecer e atender a determinadas necessidades educativas do aluno. Mas também pode contribuir para que este passe a ver-se e a ser visto – por exemplo por pais e professores – através de um diagnóstico, dificuldade ou défice.
- Num contexto organizacional – uma avaliação desenvolvida no âmbito de um processo de seleção permite aceder a informação sensível, mas não necessariamente relevante para a decisão de contratação. A partilha indevida dessa informação com a organização pode traduzir-se em inequidade na tomada de decisão laboral relativamente a esse candidato, e a prejuízo para ambas as partes.
A solução para a assimetria de poder não é fingir que ela não existe. Cabe ao psicólogo a responsabilidade de reconhecer o seu poder na relação, e de o utilizar de forma consciente, limitada e responsável. Assim…
- Na relação com o cliente, cabe ao psicólogo: explicar o papel profissional, nomeadamente o âmbito e os limites do mesmo; obter consentimento informado por parte do cliente; antecipar e prevenir potenciais conflitos de interesse, refletindo sobre quem pode potencialmente beneficiar ou ser prejudicado pela intervenção; reconhecer os limites do seu conhecimento, distinguindo factos de inferências e de opiniões pessoais; preservar e potenciar nos seus clientes o exercício da sua autonomia.
- Na relação com outros interlocutores, cabe ao psicólogo reconhecer que uma parte significativa do que fazemos na relação profissional envolve produzir conhecimento sobre outra pessoa, e que esse conhecimento pode posteriormente circular para além dessa relação. A pessoa não controla o que fica registado, quem terá acesso, como será interpretado e como será utilizado posteriormente. Cabe então ao psicólogo ser criterioso relativamente a que informação recolher, o que registar, o que comunicar, a quem e como.
Sobretudo, cabe ao psicólogo monitorizar a evolução desta assimetria ao longo de toda a relação. O objetivo último da intervenção psicológica é promover o auto-conhecimento do cliente e, dessa forma, o exercício da sua autonomia. Desta perspetiva, o sucesso da intervenção traduz-se numa diminuição progressiva da assimetria na distribuição do poder.