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O preço do trabalho digno

Recentemente, assistimos a uma situação alarmante que se tornou viral nas redes sociais: um treinador de basquetebol de 81 anos foi filmado a puxar o cabelo de uma das suas jogadoras e a falar/gritar com ela de forma desadequada/agressiva. Este comportamento, desumano e abusivo, resultou na sua demissão (porque aconteceu ou porque foi filmado?), mas deixou uma questão importante no ar: como garantimos a dignidade nas nossas relações de trabalho?

A dignidade no trabalho vai muito além do respeito pelo outro, abrange todos os aspetos da vida profissional e deve ser cultivado constantemente. No entanto, a realidade muitas vezes revela contradições e práticas que distorcem o verdadeiro significado do que é um “trabalho digno”. Um exemplo disso é a discrepância que pode existir entre o que é recomendado/apregoado e o que é praticado internamente, entre “imagem” e “substância”, entre palavras e ações.

O que é um trabalho digno?

O trabalho digno é aquele que garante não só o cumprimento das necessidades básicas do trabalhador, mas que também proporciona condições para o seu bem-estar e desenvolvimento. Acrescenta-se ainda a noção de salário digno, que deve garantir a subsistência, qualidade de vida, participação social e oportunidades de crescimento profissional. Quando um salário não cumpre essas condições, não só desrespeita a dignidade do trabalhador, mas também compromete a saúde psicológica e o equilíbrio que tanto se procura entre a vida profissional e pessoal.

Um trabalho indigno tem implicações graves, não só para a saúde mental e física dos trabalhadores, mas também para as organizações. A falta de remuneração adequada está associada ao aumento do stress, diminuição da produtividade e maior rotatividade. Há vários setores de mercados (e vários profissionais) que já sentem e apontam essa desvalorização, as empresas também referem dificuldade na retenção de talento quando não há esta adequação na retribuição das pessoas. 

O que podemos fazer?

Se a responsabilidade pelas condições de trabalho deve, sem dúvida, ser partilhada entre as organizações e as entidades governamentais, o que podemos fazer individualmente para promover um trabalho digno?

  1. Refletir sobre o que está sob o nosso controlo: Se somos trabalhadores numa entidade, a nossa ação direta é limitada, mas ainda assim podemos contribuir para a construção de um ambiente mais respeitoso e digno. Desde a prática diária de comportamentos éticos até à forma como comunicamos com os colegas e superiores – pequenas ações podem ter um impacto significativo. Podemos ser ativistas da ética e da moralidade, porta-vozes da responsabilidade, megafones da crítica construtiva e diplomatas da qualidade interpessoal.
  2. Profissionais de recursos humanos/gestores: Se ocupamos uma posição mais influente, temos mais responsabilidade. Podemos implementar políticas internas que promovam a transparência salarial, equidade nas promoções e a construção de uma cultura organizacional de respeito. Podemos criar um sistema de feedback justo, políticas de diversidade e inclusão, promover o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Se temos uma posição de responsabilidade, a reflexão sobre a dignidade que estamos a promover tem de ser central na nossa prática profissional.
  3. Advocacia para políticas públicas: Os psicólogos também podem ter um papel ativo na advocacia por melhores condições de trabalho, participando na definição de políticas públicas e na sensibilização para a importância da dignidade no trabalho.

O que aconteceu com o treinador de basquetebol é um reflexo das assimetrias de poder que podem existir em qualquer contexto, seja ele desportivo, corporativo, organizacional ou académico. Em todos estes espaços, a dignidade dos trabalhadores deve ser a prioridade, e para isso é essencial criar uma cultura organizacional onde a equidade, o respeito e a transparência sejam valores centrais. Embora o caso em questão tenha resultado numa demissão imediata, muitos outros ambientes de trabalho não garantem uma ação tão rápida ou eficaz. Por isso, é fundamental que continuemos a questionar as práticas institucionais e a nossa própria participação nas dinâmicas do local de trabalho. A dignidade no trabalho não deve ser vista como um luxo, mas como um direito inalienável de todos.