PsiCarreiras

logo-psicarreiras
Blog

Depois do apito final, a psicologia continua: Novos contextos de intervenção

A Psicologia ainda é muitas vezes associada à imagem de um consultório, duas cadeiras e uma intervenção centrada no sofrimento individual. Embora essencial, esta associação está muito longe de representar a amplitude da profissão. A Psicologia está presente onde existem pessoas em desenvolvimento, mudança, tomada de decisão, adaptação ou em reconstrução de projetos de vida. Ou seja, a pergunta “mas afinal o que faz um psicólogo?” pode tornar-se mais difícil de responder do que muitos exames de estatística.

Enquanto profissional com formação em Psicologia Clínica e em Psicologia Forense e Criminal, sempre me fascinou a forma como as diferentes áreas da Psicologia se cruzam e se complementam em múltiplos contextos. Talvez por isso surge o meu interesse em olhar para áreas que não fazem parte do meu território de especialização, mas que mostram a abrangência da nossa profissão e a Psicologia do Desporto é uma dessas áreas.

Quando pensamos em Psicologia do Desporto, é comum pensarmos na intervenção psicológica com atletas, treinadores ou equipas, centrada na motivação, concentração, ansiedade, coesão de grupo ou otimização do rendimento. No entanto, reduzir a Psicologia do Desporto apenas à motivação antes de uma prova seria como reduzir a Psicologia Clínica a “respirar fundo”: pode ajudar, mas não chega. O psicólogo nestes contextos pode acompanhar o atleta antes, durante e após a carreira competitiva, apoiando em processos de desenvolvimento, adaptação, tomada de decisão e construção de novos projetos de vida. Esta intervenção torna-se particularmente relevante quando a carreira termina cedo, como acontece frequentemente em atletas de alto rendimento.

Em várias modalidades desportivas, o fim da carreira ocorre entre os 30 e os 40 anos, ou até antes, dependendo das exigências físicas, das lesões, da modalidade e das oportunidades profissionais existentes. Numa idade em que muitas pessoas estão ainda a tentar alinhar expectativas profissionais, oportunidades e realidade (uma tarefa que, por si só, já merecia uma medalha olímpica) alguns atletas já concluíram uma carreira inteira. Esta saída precoce de um contexto profissional altamente exigente corresponde a uma transição de identidade, rotina, pertença e futuro, onde o acompanhamento psicológico é essencial.

A literatura tem vindo a conceptualizar o término da carreira desportiva como uma transição complexa, que envolve dimensões psicológicas, sociais, ocupacionais e financeiras. As abordagens holísticas às transições de carreira no desporto consideram o atleta não apenas na sua dimensão atlética, mas também nas dimensões psicológica, psicossocial, académica e vocacional. A FEPSAC (Fédération Européenne de Psychologie des Sports et des Activités Corporelles) tem igualmente sublinhado a importância de apoiar os atletas na identificação de competências transferíveis para contextos não desportivos.

A saída precoce do “mercado de trabalho” desportivo pode representar uma exigência emocional significativa, onde o atleta confronta-se com a perda de uma rotina altamente estruturada, a alteração do estatuto social, a redução do reconhecimento externo, a necessidade de redefinir objetivos e a reconstrução de uma identidade que, durante anos, esteve profundamente ligada ao desempenho. Não se trata apenas de “deixar de competir”, mas também de reorganizar uma vida que foi, desde muito cedo, construída em torno da competição.

Deste modo, o psicólogo pode atuar de forma preventiva, desenvolvimental e clínica, ajudando o atleta a antecipar cenários, elaborar perdas, regular emoções, diversificar fontes de identidade e construir novas narrativas de futuro. Pode também apoiar a identificação de competências adquiridas no alto rendimento, como a disciplina, resiliência, gestão da pressão, compromisso, trabalho em equipa e autorregulação, e a sua passagem para novos contextos pessoais e profissionais.

É também aqui que o cruzamento entre áreas da Psicologia se torna indispensável. A Psicologia do Desporto oferece a compreensão das exigências do alto rendimento, a Psicologia Clínica permite intervir quando surgem dificuldades emocionais ou de ajustamento, a Psicologia da Carreira apoia a exploração de novos percursos profissionais, e a Psicologia das Organizações pode contribuir para que clubes, federações e estruturas desportivas criem respostas de apoio mais sustentadas.

Quantas outras áreas da Psicologia permanecem ainda pouco visíveis porque simplesmente continuamos a imaginá-las apenas dentro dos contextos mais tradicionais? Para nós psicólogos, este exemplo mostra a importância de desenvolver competências transversais e de estar disponível para intervir em contextos menos óbvios. A empregabilidade em Psicologia constrói-se na capacidade de reconhecer necessidades emergentes, dialogar com outras áreas e traduzir o conhecimento psicológico em respostas úteis para pessoas, equipas e organizações.

A inovação torna-se evidente na capacidade de responder a transições complexas, antes que se transformem em crise. A carreira desportiva pode terminar cedo, mas a pessoa continua com a sua história, competências, identidade, vulnerabilidades e futuro. E a Psicologia pode ajudar a transformar esse “depois” num novo percurso de desenvolvimento, adaptação e sentido.