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A Saúde Mental não tem preço. Ou tem?...

O Joker é uma figura da DC Comics surgida pela primeira vez nos idos de 1940, némesis do lendário Batman. Uma personagem secundária, portanto, que veio a ganhar contornos de protagonista quase oito décadas mais tarde, num filme que sugere uma possível explicação para a sua ignomínia. Num cenário excessivo e sombrio (uma Gotham suja e decadente, onde a pobreza e a violência proliferam) o filme de Todd Phillips descreve uma situação que poderia ser real: Arthur Fleck, um homem com doença mental, ouve da sua terapeuta que os fundos para o programa de apoio de que beneficiava seriam cortados e as sessões iriam terminar – e com elas, até o acesso à medicação. O que se segue – o colapso psicológico de um homem que se converte num criminoso socialmente aclamado – é um retrato individual do desamparo. Mas, suscitando mais piedade que repulsa, a sua história reflecte um problema estrutural: o desapreço pela Saúde Mental e o seu impacto numa comunidade inteira.

O Joker é uma personagem de ficção. Os portugueses que necessitam de apoio psicológico e não o podem obter, são pessoas reais. A nossa Constituição garante o direito à Saúde, mas apenas no papel, sendo prova disso o subfinanciamento crónico do SNS, a falta de profissionais ou as longas listas de espera. E no que à Saúde Mental diz respeito, o imperativo constitucional parece ainda mais utópico.

Portugal tem uma das prevalências de problemas de Saúde Mental mais elevadas da Europa (na ordem dos 23%), um quadro com enorme impacto individual, familiar, laboral, social e económico. Não são números surpreendentes, se considerarmos o panorama socioeconómico: a deterioração das condições de vida e de trabalho, os baixos salários ou a crise da habitação. Mas a capacidade de resposta do SNS limita-se a pouco mais de 1.000 Psicólogos/as em todo o território nacional (apenas cerca de 300 nos Cuidados de Saúde Primários), com tempos máximos de resposta sistematicamente ultrapassados. Apenas uma curta minoria (cerca de 3%) tem capacidade financeira para recorrer ao sector privado, onde uma consulta de psicoterapia tem um custo médio de 65€. Para quem não o pode fazer – num país onde o salário mínimo é de 920€ mensais e metade dos trabalhadores recebe menos de 1.050€ brutos por mês – a solução passa pela espera, pela desistência ou, muitas vezes, pelo recurso à medicação: um em cada quatro portugueses com sintomas moderados de depressão ou ansiedade não recebe qualquer acompanhamento psicológico ou psicoterapêutico, limitando o tratamento ao consumo de psicofármacos. Em 2025, consumiram-se 29,4 milhões de embalagens, o valor mais elevado da última década, com um custo de 152 milhões de euros para o Estado.

Os mais de 35.000 Psicólogos/as inscritos na OPP são actores deste drama real. A nossa formação dá-nos ferramentas para refletir sobre os determinantes da Saúde Mental, mas não nos protege da vulnerabilidade de existir e trabalhar sob a pressão das mesmas condições que afectam quem nos procura. A profissão é atravessada pelas mesmas dificuldades: baixos salários, precariedade laboral e ainda elevados níveis de exigência técnica e emocional. Numa classe profissional nestas condições, quantos de nós apagam a instabilidade com um ansiolítico? Quantos de nós podem cobrar abaixo do valor médio acima referido, na consciência das condições de vida das pessoas e das suas necessidades? Quantos de nós não tiveram a possibilidade de iniciar o seu próprio processo terapêutico, ou acabaram por interrompê-lo, por razões financeiras? Qual é o preço justo a receber, e a pagar, pela Saúde Mental?

Ironicamente, a Saúde Mental não deveria ter preço. É um direito constitucionalmente consagrado, convertido em privilégio e mercadoria, disponível apenas a quem o pode pagar. Os custos desta opção política são mensuráveis: mais sofrimento psicológico, mais problemas de Saúde Mental, mais psicofármacos, mais dias de trabalho perdidos e outros custos sociais consideráveis: a vulnerabilidade à doença, o descrédito e a desconfiança nas instituições, a apatia cívica, a violência doméstica, as desigualdades que se perpetuam. Este é também o arco do Joker: o vilão que não nasce malvado, que resulta da Gotham obscura que o abandonou e que sucumbe a uma loucura que se torna contagiosa. A ficção torna-o extraordinário. No nosso quotidiano, o seu repto sarcástico é metaforicamente ampliado: Is it just me… or is it getting crazier out there?