
Desde 2008, data em que foi criada a Ordem dos Psicólogos Portugueses, assistimos a um crescente reconhecimento e valorização da nossa profissão. Esta valorização não só dignifica o nosso papel na sociedade, como também exige uma maior responsabilidade na forma como avaliamos, intervimos e nos posicionamos no mercado de trabalho. Ao longo destes 17 anos, as competências dos psicólogos tornaram-se mais requisitadas, e a tecnologia tem sido um fator determinante na adaptação das nossas práticas às necessidades diárias.
A evolução tecnológica trouxe inúmeros benefícios à prática psicológica, nomeadamente no impacto da avaliação e intervenção dos psicólogos. Num mercado de trabalho cada vez mais exigente, onde a produtividade e a eficácia são fatores cruciais, a inteligência artificial pode desempenhar um papel fundamental no crescimento da empregabilidade na área da Psicologia. Longe de substituir os profissionais, estas tecnologias permitem aumentar a acessibilidade aos serviços psicológicos e criar oportunidades de trabalho. A sua utilização ética e estratégica pode contribuir para a diversificação das funções dos psicólogos e impulsionar a inovação e a expansão da psicologia para um público mais vasto.
A utilização da IA pode ainda contribuir para a agilização de processos, como por exemplo, a interpretação de respostas em instrumentos de avaliação psicológica, permitindo que o psicólogo tenha mais tempo para a construção de planos de intervenção eficazes e para um acompanhamento mais humanizado. A inovação tecnológica nunca substituirá o psicólogo, mas pode ampliar a sua capacidade de resposta, tornando-o mais preparado para enfrentar as exigências do mercado de trabalho.
Apesar destas vantagens, importa refletir sobre os desafios que a inteligência artificial impõe aos profissionais de psicologia. A crescente automatização de processos exige que sejam desenvolvidas competências adicionais, como a literacia digital e a capacidade de adaptação a novas ferramentas tecnológicas. O psicólogo que deseja destacar-se no mercado deve não apenas dominar os conhecimentos técnicos e científicos da sua área, mas também saber integrar a tecnologia na sua prática de forma ética e eficaz.
Para além disso, importa realçar o maior desafio da inteligência artificial: a relação humana. O olhar de compreensão, a palavra certa no momento certo, o silêncio respeitador e confortante – são estas as ferramentas do psicólogo que nenhum computador poderá replicar. Num mundo onde tudo parece estar caracterizado por um ritmo demasiado acelerado, a nossa prática profissional continua a ser um espaço onde as pessoas encontram empatia, escuta ativa e um porto seguro para os seus medos, dúvidas e dores. E por este motivo, a presença da tecnologia na psicologia exige responsabilidade. É certo que se torna essencial garantir que a confidencialidade dos dados está sempre protegida e que as ferramentas que utilizamos são rigorosas e éticas. Mas mais importante do que isso, é essencial que saibamos quando não a usar, para que não percamos de vista o que realmente importa.
Stephen Hawking durante uma entrevista à BBC em 2014 referiu que “the development of full artificial intelligence could spell the end of the human race” (“o desenvolvimento da inteligência artificial completa pode significar o fim da raça humana”), sugerindo que a inteligência artificial não deve ser vista como um substituto para a humanidade, mas como uma ferramenta.
Deste modo, não podemos perder a essência da nossa prática profissional, pois a tecnologia nunca será o coração da psicologia. Esse pertence a cada um de nós, que diariamente escolhemos estar presentes de forma genuína, ética e empática. É este coração humano, que transforma vidas, que faz a diferença e que mantém a nossa profissão tão essencial.