
Artigo por
Rodrigo Diniz
Fala-se muito de escolhas de carreira e muito pouco do que as permite. Tem-se construído a ideia de empregabilidade em torno da iniciativa individual, do esforço de quem sabe procurar e sabe agarrar oportunidades. Só que nos últimos anos o acesso à habitação tornou-se um dos principais fatores de exclusão indireta no mercado de trabalho. Os números são conhecidos, mas vale a pena repeti-los:

- Entre 2015 e 2023, os preços das casas em Portugal aumentaram cerca de 105,8%. No mesmo período, a remuneração média cresceu apenas 40,2%.
- Portugal tem hoje a pior relação entre os preços das casas e rendimentos de toda a OCDE (2024).
- É também o 3.º país da União Europeia onde o preço das casas mais cresceram (2024).
- 3 em 10 arrendatários a preço de mercado gastam mais de 40% do seu rendimento com a habitação (2022).
- Mais de metade dos jovens entre os 25 e os 34 anos ainda vivem com os pais (2021).
- Portugal atingiu o valor mais alto de sempre no índice de acessibilidade habitacional.
A escassez da oferta e a financeirização do imobiliário puseram quem procura trabalho perante o dilema da impossibilidade de viver perto das oportunidades. Por consequência, muitos jovens adiam a saída de casa. Outros aceitam empregos que não correspondem às suas escolhas de carreira, e há quem vá viver para a periferia e se sujeite a deslocações longas. Entrar no mercado de trabalho implica cálculos que pouco têm a ver com competências.
— Quanto custa uma renda?
— Quantas horas de deslocações diárias?
— Quanto sobra no fim do mês, depois do essencial?
Num capítulo do Handbook of Life Course Health Development (2018), Wood e colegas mostram que os recursos materiais pesam na forma como os jovens chegam à vida adulta. Sem estabilidade material as decisões tornam-se provisórias. Anthony Giddens chamou «segurança ontológica» à confiança na continuidade da própria identidade e do meio em que se vive, que permite pensar o futuro. Quando a habitação é incerta, porque é cara ou porque se pode perder a qualquer momento, torna-se difícil estruturar um projeto de vida.
Há também um preço psicológico, que a investigação em saúde pública tem medido. Um estudo longitudinal australiano mostra que tanto a exposição prolongada como a intermitente a custos de habitação incomportáveis estão associadas a pior saúde mental, mesmo depois de ter em conta a saúde mental de partida. O efeito da exposição prolongada é mais do dobro do da intermitente. Noutro estudo com os mesmos dados, a saúde mental só piorava quando a casa deixava de ser comportável nos agregados com emprego inseguro.
Bentley, Baker e Aitken chamam «dupla precariedade» a esta combinação de casa incomportável e emprego inseguro. A casa incomportável, só por si, pesa mais na saúde mental de quem tem entre 25 e 44 anos e dos arrendatários. Num relatório de 2024 a Eurofound aponta a habitação como um dos principais obstáculos à independência dos jovens europeus e conclui que o seu custo torna muitos empregos insuficientes para uma vida digna.
Estudos longitudinais demonstram que tanto a exposição prolongada como a intermitente a dificuldades de acesso à habitação estão associados a níveis mais baixos de saúde mental.
Tudo isto obriga a rever a forma como se fala de empregabilidade. Um discurso centrado só nas competências arrisca-se a ocultar as condições reais em que se procura trabalho e a pôr no lugar delas uma retórica de autossuperação, que promove o esforço individual sem reconhecer os limites que o contexto impõe.
Atenção: Fale-se de empregabilidade, promovam-se as competências e a formação. Mas a empregabilidade não se faz só de mindset, soft skills e lifelong learning. Faz-se também de paredes e de metros quadrados, de um mínimo de chão, de um lugar onde se possa começar e onde seja possível ficar.
Continuar a falar de empregabilidade sem falar de habitação é insistir numa ficção. Por muito que se multipliquem os discursos sobre o futuro e o talento, é cada vez mais difícil trabalhar onde não se consegue viver. Para os mais jovens a pergunta já não é só «Em que área queres trabalhar?», mas cada vez mais «Onde podes viver para o fazer?»
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