PsiCarreiras

logo-psicarreiras
Blog, Recursos

Objetivos profissionais em Psicologia para 2023

Artigo por
Rodrigo Diniz

Muitos psicólogos aproveitam o início do ano para pôr objetivos no papel. A Psicologia estudou bastante esse gesto, e o que sabe sobre ele nem sempre coincide com o que se lê nos guias de produtividade.

Edwin Locke e Gary Latham passaram décadas a estudar o estabelecimento de objetivos e, numa síntese publicada em 2002, concluíram que objetivos específicos e exigentes levam a melhor desempenho do que a intenção de fazer o melhor possível. Isso só acontece quando a pessoa se compromete com o objetivo e vai sabendo como está a progredir. «Melhorar na prática clínica» não orienta ninguém. «Realizar até junho dez avaliações supervisionadas com um instrumento que ainda não uso» já diz o que fazer na segunda-feira, e o mesmo vale para quem trabalha numa organização e decide concluir até ao verão a formação de que precisa para um novo tipo de intervenção.

Em tarefas novas ou complexas, Winters e Latham, em 1996, e Seijts e Latham, em 2001, encontraram outro padrão. Aí os objetivos de resultado podem atrapalhar, e funcionam melhor objetivos de aprendizagem, desde que também sejam específicos, por exemplo identificar e experimentar um número definido de estratégias novas. No início da carreira quase tudo é novo, por isso faz sentido avaliar o primeiro ano mais pelo que se aprendeu a fazer do que pelos números atingidos.

No início da carreira quase tudo é novo, por isso faz sentido avaliar o primeiro ano mais pelo que se aprendeu a fazer do que pelos números atingidos.

Em 2009, Lisa Ordóñez e colegas reuniram os custos dos objetivos num artigo chamado Goals gone wild. Objetivos demasiado estreitos fazem perder de vista o que não se está a medir, e metas muito ambiciosas com prazos apertados aumentam a tentação de atalhos. Locke e Latham responderam no mesmo ano que esses efeitos vêm de objetivos mal desenhados e não do método em si, e para quem define objetivos a consequência prática é a mesma nos dois casos, pensar no desenho antes de começar. Em Psicologia, um objetivo que conte apenas clientes ou sessões pode deixar a qualidade do acompanhamento fora da conta.

Com anos de prática, os objetivos costumam mudar de natureza e voltam-se mais para a revisão do próprio método. A supervisão e a intervisão são o sítio habitual para esse trabalho, a Ordem tem documentos de orientação para ambas, e marcar logo em janeiro as datas da intervisão do ano é uma maneira simples de garantir que ela acontece.

Para 2023, a recomendação que deixo é escrever poucos objetivos, específicos e exigentes, e olhar de vez em quando para aquilo que eles deixam de fora.

Ler também