PsiCarreiras

logo-psicarreiras
Blog

Vamos Falar de (Sobre)Carga Mental?

Começo com uma muito breve checklist (qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência) – quantas das seguintes preocupações pairam na sua cabeça nestas últimas semanas?

  • espero que ninguém adoeça no natal
  • falta-me comprar x presentes
  • o que precisarei de cozinhar na quadra festiva (e o que é necessário comprar e preparar antecipadamente para o efeito)
  • como hei de conciliar trabalho com férias escolares dos filhos
  • como vou gerir as minhas próprias emoções e a dos outros em reuniões familiares que nem sempre correm como desejamos
  • tenho de preparar surpresas para as crianças porque “o natal é mágico”
  • sinto culpa por não estar a conseguir desfrutar da quadra festiva, que nos é apresentada como idílica

Se se identifica com pelo menos três destas preocupações, será mais fácil para si entender porque surge este tema nesta altura do ano… fase em que tantas tarefas são asseguradas por apenas alguns de nós, muitas vezes de forma invisível ou pouco valorizada, e associadas a padrões de perfeição e exigência típicos do Natal.

Sabem quando temos no navegador abertas 20 separadores e 3 deles estão a piscar? O meu cérebro às vezes está assim… um emaranhado de preocupações, listas de coisas por fazer, assuntos a não esquecer. “Reunião amanhã às 9h00 e é preciso imprimir hoje o resumo da apresentação / amanhã a criança tem de ir vestida de azul escuro, porque vão fazer um teatro / se conseguir, na hora de almoço dou um salto ao supermercado / daqui a uma semana termina o prazo para submeter aquele relatório” – será que este tipo de pensamentos concorrentes vos é familiar…? A sensação de carregar às costas o nosso mundo é real e acontece a muitos de nós – é o que é descrito pela psicologia como carga mental (mental load).

O fenómeno acaba por estar intrinsecamente, mas não só, ligado ao trabalho não pago, ou seja, ao acumular das exigências [cognitivas, emocionais] do trabalho de gestão doméstica e familiar com o do trabalho, que continuam a incidir de forma desproporcionada sobre as mulheres. Isto acentua-se quando se associa à vivência da parentalidade, mas também noutras situações em que é necessário cuidar de alguém que depende de nós. Surgem mais tarefas a desempenhar, mais preocupações a nosso cargo, e aliando-se a menor quantidade e qualidade de sono, bem como a exigência de nos mantermos a conciliar essa parte da vida com uma carreira (que queremos, a todo o custo, que não se ressinta), é a receita para esta sensação de malabarismo com bolas a mais do que as que conseguimos manter no ar.

Nos últimos anos tem-se falado bastante mais – e bem – sobre o burnout, a exaustão relacionada com o excesso de exigências no trabalho. Pois, creio que está na hora de se falar mais sobre a (sobre)carga mental.

Claro está que, entre outros, um dos aspetos da vida que se ressentirá com esta sobrecarga será o planeamento de carreira. Às vezes nem é que falte, objetivamente, tempo disponível para refletir, planear, agir… falta disponibilidade mental.

Seria de esperar que se seguissem sugestões para a pessoa sobrecarregada lidar melhor com o seu problema… contudo, nem pensar!, isso seria acrescentar mais carga. Vamos, em vez disso, pensar no que, cada um de nós, pode procurar fazer, proativamente, para aliviar a carga de alguém próximo:

  • Antecipe-se, em vez de esperar indicações. Em vez de perguntar de que forma pode ajudar, analise a situação e encontre formas de contribuir para o que é preciso fazer.
  • Envolva-se nas decisões. Embora possa parecer elogioso que confie noutra pessoa para decidir por si, muitas vezes o “tanto faz” ou “decide como preferires” apresenta-se como um presente envenenado. Para quem está sobrecarregado, mais uma decisão pode ter peso, e poder contar com o seu apoio a dizer qual o caminho pode ser uma forma gentil de aliviar essa preocupação.
  • Sempre que possível, assuma tarefas do início ao fim. Tentar “ajudar” sem decidir ou planear não gera grande alívio. Assim, encontremos forma de assumirmos responsabilidades de forma mais plena, desde a ideia, ao planeamento, execução e acompanhamento, será verdadeiramente ajudar, em vez de só “participar”.
  • Ajuste expectativas e normalize o “suficientemente bom”. Parte da sobrecarga, e em especial na época natalícia, cheia de ideais de perfeição, é pela preocupação de não só fazer tudo, mas fazer bem, agradar a todos. Aceite soluções mais simples, sabendo que se faz o que é possível.
  • Reconheça o que fazem. Por vezes, um simples “obrigado” sentido pode fazer com que quem está num turbilhão de esforço se sinta “visto”, validado e valorizado. Quando se espera de alguém que resolva muita coisa, fica a parecer que “não faz mais do que a sua obrigação”. Mostre que esses esforços são importantes e notados.

Enfim, que a (sobre)carga mental seja um tema em relação ao qual assumimos maior consciência e corresponsabilização ativa, aliviando o peso que outros possam estar a sentir.