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Toda a gente sabe que … é melhor ser um especialista ou um generalista?

No “Toda a gente sabe que” pegamos em ideias sobre a prática e carreira em Psicologia e viramo-las do avesso. Eu, Nuno Costa, e o Pedro Fraústo, somos dois Psicólogos com opiniões diferentes, mas com vontade de pensar em conjunto.

Nesta primeira esgrima intelectual divergimos sobre a seguinte questão: mais vale ser especialista ou generalista?

Nuno Costa:


Toda a gente sabe que é melhor ser-se um especialista (i.e., uma pessoa que se especializa numa área ou temática específica). Pedro, imagina-te num lago. Podes dar braçadas à superfície, mas se queres mesmo banhar-te nele e conhecer as suas profundezas – tens de mergulhar. Ser especialista é isso: ir ao fundo.

Parece que já estou a ouvir o teu primeiro argumento, “Mas ser especialista não nos torna míopes?”. Essa ideia até tem graça. Mas, na verdade, é o contrário. Um/a especialista não vê menos, vê melhor. Foca com a precisão de uma lupa. E é o foco que permite o rigor e o rigor é que permite inovar com uma base sólida.

Por falar em inovar, as/os especialistas parecem ser os mais capazes de gerar soluções originais nas suas áreas. Especialmente quando essas áreas se caraterizam por rápidos avanços e mudanças, como é o caso da Psicologia1.

Para termos sucesso no trabalho, mais do que saber tudo, precisamos de saber colaborar com quem sabe o resto. Equipas compostas por especialistas conseguem, por norma, dividir tarefas com mais eficácia, sabendo em que momento é necessário recorrer ao conhecimento específico de cada membro1. Trocando por miúdos: Especialistas = cooperação eficiente.

Mas vou terminar com o argumento, para mim, mais convincente. Para sermos bons nalguma coisa, precisamos de prática deliberada – ou seja, prática intencional, estruturada, com objetivos claros e feedback contínuo. É esta repetição focada, o debruçar contínuo sobre um mesmo tema, que conduz a uma performance de … especialista2. Isto aplica-se a práticas de investigação, avaliação, psicoterapia – e a praticamente tudo o que fazemos em Psicologia.

Passo-te agora a bola, Pedro.

Pedro Fraústo:


Nuno, é difícil discordar totalmente, mas aqui vai.

Toda a gente sabe que é melhor ser-se generalista (i.e., uma pessoa que consolida, deliberadamente, conhecimento de diferentes áreas), pois traz flexibilidade ao percurso profissional e vantagens em contextos de maior incerteza – ou seja, onde os problemas não têm uma solução única, mudam à medida que tentamos resolvê-los e exigem pensamento integrativo e interdisciplinar3.

Lanço-te o desafio: passarmos um dia num lago com lupas coladas aos olhos. Veremos peixes em detalhe, mas talvez não vejamos o tamanho dos cardumes, nem percebamos por que fogem e, se uma rede os apanhar, talvez nos falte a flexibilidade necessária para os ajudarmos.

Face a problemas complexos (e.g. Como reduzir os níveis de pobreza?) a amplitude de conhecimentos pode ser tão necessária quanto a precisão, permitindo interligar, por exemplo, explicações comportamentais, socioeconómicas e históricas. Nuno, aqui dirás: mas foi o que disse, diferentes especialistas colaboram e compõem equipas eficientes. Pois é, mas a comunicação entre diferentes áreas exige um conhecimento alargado do léxico e saberes técnicos das mesmas. Trocando por miúdos: Generalista = comunicação e orientação coordenadas.

Se ser especialista garante o conhecimento avançado que resulta em explicações e métodos inovadores, então ser generalista garante versatilidade na aplicação de diferentes explicações e métodos4, sobretudo em contextos de incerteza. Ainda, o foco e a repetição nem sempre explicam uma performance de excelência, esta também surge de percursos não-lineares com aprendizagens fora da área principal6.

Assim, um/a generalista está menos suscetível ao efeito Einstellung5 (i.e., “quando temos um martelo, tudo parece um prego”), deliberando sobre alternativas e ajustando-as ao contexto, em vez de aplicar soluções padronizadas. Tal como um canivete suíço pode ter uma chave-de-fendas específica – mas também uma tesoura, navalha ou um saca-rolhas — o/a generalista é um integrador/a que promove a utilidade dos/as especialistas à sua volta.

É claro, um/a generalista sabe o seu lugar: o conhecimento especializado tende a garantir respostas eficientes a questões específicas, sendo a consultoria e o encaminhamento fundamentais quando a sua chave-de-fendas não se adequa.

Compromisso de resolução:

Afinal, nem preto, nem branco. O ideal pode ser um pouco dos dois: especialistas-generalistas ou generalistas-especialistas.

Mais do que uma escolha definitiva entre especializar ou diversificar, pode fazer mais sentido perguntar “em que contexto estou a trabalhar?”, “em que fase da minha carreira?” e “que tipo de problemas quero resolver?”. A resposta a estas perguntas pode levar-nos a percursos diferentes – mas não incompatíveis.

Há quem mergulhe fundo numa área e, ao longo do tempo, aprenda a nadar entre margens. E há quem comece a explorar territórios diversos até encontrar um foco que faça sentido aprofundar. O importante é reconhecermos o valor de ambos os movimentos.


Referências bibliográficas

1 Teodoris, F., Bikard, M. & Vakili, K. (2018). When generalists are better than specialists, and vice versa. Harvard Business Review, 1-8.
2 Wampold, B. & Fluckinger, C. (2023). The alliance in mental health care: conceptualization, evidence and clinical applications. World Psychiatry, 22, 25-41.
3 Epstein, D. (2019). Range: Why generalists triumph in a specialized world. Riverhead Books.
4 Jain, A., & Mitchell, W. (2022). Specialization as a double-edged sword: The relationship of scientist specialization with R&D productivity and impact following collaborator change. Strategic Management Journal, 43(5), 986–1024.
5 Bilalić, M., McLeod, P., & Gobet, F. (2010). The mechanism of the Einstellung (set) Effect: A pervasive source of cognitive bias. Current Directions in Psychological Science19(2), 111-115. 
6 Güllich, A., Macnamara, B. N., & Hambrick, D. Z. (2021). What makes a champion? Early multidisciplinary practice, not early specialization, predicts world-class performance. Perspectives on Psychological Science17(1), 6-29.