
Numa leitura atenta do texto do meu colega Pedro – Quando pensar se torna opcional: a delegação cognitiva e a nova missão dos psicólogos -, fiquei preso a uma frase:
“O problema não é usar Inteligência Artificial. O problema é habituarmo-nos a não pensar sem ela.”
Se forem mais ou menos parecidos/as comigo, esta frase poderá mexer um pouco convosco. Eu já me habituei ao conforto de usar Aquela Inteligência cujo Nome estamos fartos de Pronunciar (AINP) para dar um kick-off a todo o tipo de coisas. Um rascunho, um e-mail ou um parágrafo. E o impulso para usar a AINP é tanto maior quanto maior for a pressão do tempo ou a sobrecarga que me acomete.
Por esta razão, decidi escrever um texto sobre usar a Inteligência Artesanal. Ou em linguagem coloquial: sobre usar a nossa carola.
A minha proposta não é radical. Não vou pedir para cancelar subscrições, nem para evitar olhar nos olhos da AINP. Proponho algo simples: reservar pelo menos um projeto onde só usamos Inteligência Artesanal. O meu desejo honesto é o de garantir que mantemos um espaço mental livre, puro e criativo, sem influências de silício. Ou, se preferirmos fazer esta afirmação de um modo mais dramático: garantir que mantemos um último reduto.
Podemos usar o “último reduto” para mil e uma finalidades. Vou, no entanto, deixar algumas ideias das áreas em que manter acesa a chama do pensamento humano vale muito a pena.
O “último reduto” vale muito a pena …
… para a aprendizagem. Quando precisamos de aprender e sintetizar novas ideias,uma primeira medida simples é um detox digital: ler e escrever em papel. Ler em papel parece facilitar uma compreensão mais profunda do que ler em PDF1. E escrever com caneta em papel tende a favorecer a retenção de informação quando comparado com o teclado2. E, já agora, não nos esqueçamos de que escrever é pensar. Quando as ideias saem sem rei nem roque, a escrita é o caminho da ordem3.
No fundo, é preciso pensar para escrever e é preciso escrever para pensar melhor. Para aprendermos algo novo, temos mesmo de ser nós a ler, escrever e organizar a informação.
… para a criatividade. Não há nada como brainstorming entre humanos. Segundo Lee e Chung4 fazer brainstorming com um modelo d’Aquela Inteligência cujo Nome estamos fartos de Pronunciar pode ajudar a gerar ideias “boas”. O problema é que muitas vezes pecam pela originalidade. Em 2025, Meincke e colaboradores5, ao analisarem a diversidade das ideias criadas no estudo anterior, concluíram que 100% das ideias da Inteligência Artesanal eram únicas, por comparação com um valor muito inferior na outra Inteligência.
Moral da história: se queremos ideias vencedoras, devemos usar os brains humanos para fazer a storm. É desse encontro que surgem as inovações que mudam o mundo.
… para o sentido crítico. Quando queremos uma discussão/revisão séria dos nossos projetos, em vez de “conversarmos” com um ser de silício que tem tendência a alinhar connosco, optemos por conversar com um/a colega ou amigo/a. As Inteligências de carne e osso, como nós, são mais trabalhosas. Precisamos de as escutar, ajustar e defender argumentos, ceder, afinar in loco. Só que o trabalhoso também traz benefícios. É através deste processo que se faz a manutenção e se aguça o sentido crítico que tanto nos custou a ganhar6,7.
… para o envolvimento. De acordo com o relatório da Digital Future Center, mais de metade das pessoas inquiridas dizia sentir-se preguiçosa por recorrer à AINP e uma em cada três sentia que tinha feito batota8. Isto faz-vos pensar nalguma coisa? Ding, ding, ding. Estão a soar os alarmes do Síndrome do Impostor. Não nos percecionarmos como autores/as do nosso trabalho e das nossas ideias é a tempestade perfeita para o desengajamento. E o desengajamento corrói a satisfação com o trabalho, os momentos de flow e o sentido de propósito6.
Se pretendemos manter as nossas faculdades cognitivas, a sensação de autoria e evitar uma sensação de pânico generalizada sempre que a internet vai abaixo, proponho isto:
Escolher um projeto em 2026 (basta um) e fazê-lo usando exclusivamente a Inteligência Artesanal (pode ser um artigo, um workshop, uma aula ou outra coisa qualquer).
3 Regras simples:
1. Ideia, conceção, estrutura, rascunho: tudo humano.
2. Se precisarmos de ajuda, podemos recorrer a amigos/as, colegas, supervisores/as de carne e osso.
3. Ferramentas permitidas: papel, livros, artigos, post-its, caminhadas, conversas.
Aquela Inteligência cujo Nome estamos fartos de Pronunciar vai-nos acompanhar no futuro. É inevitável. E não precisamos de a cancelar. Precisamos, isso sim, de preservar o pensador/a que há em nós. Pode ser que baste isto, um projeto exclusivamente nosso. Uma prova anual de que continuamos a saber fazer a coisa mais importante: pensar.
Referências bibliográficas
1 Delgado, P., Vargas, C., Ackerman R., & Salmerón, L. (2018). Don’t throw away your printed books: A meta-analysis on the effects of reading media on reading comprehension. Educational Research Review, 25, 23-38.
2 Flanigan, A., Wheeler, J. Colliot, T., Lu, J. & Kiewra, K. (2024). Typed Versus Handwritten Lecture Notes and College Student Achievement: A Meta-Analysis. Educational Psychology Review, 36(78).
3 Mollick, E. (2024). 15 Times to use AI, and 5 Not to. Retirado de https://www.oneusefulthing.org/p/15-times-to-use-ai-and-5-not-to.
4 Lee, B. & Chung, J. (2024). An empirical investigation of the impact of ChatGPT on creativity. Nature Human Behaviour, 8, 1906-1914.
5 Meincke, L., & Nave, G. & Terwiesch, C. (2025). ChatGPT decreases idea diversity in brainstorming. Nature Human Behaviour, 9, 1107–1009.
6 Mollick, E. (2025). Against “brain damage”. Retirado de https://www.oneusefulthing.org/p/against-brain-damage.
7 Schueler, B. & Larned, K. (2023). Interscholastic Policy Debate Promotes Critical Thinking and College-Going: Evidence From Boston Public Schools. Educational Evaluation and Policy Analysis, 47(1).
8 Rainie, L. (2025). Close encounters of the AI kind: the increasingly human-like way people are engaging with language models. Elon University.