
Há uma diferença entre estar perdido e estar parado. Quem está perdido não tem mapa. Quem está parado tem o mapa, reconhece os caminhos – talvez até já os tenha explicado a outros –, mas as pernas não obedecem. Na nossa profissão, o problema raramente é o primeiro.
Aristóteles chamou-lhe akrasia: saber o que é melhor fazer e não o fazer. Uma estranha falha entre pensamento e ação, como se entre uma coisa e outra houvesse um intervalo.
O psicólogo bloqueado não é ingénuo. Sabe que não quer continuar a fazer avaliações neuropsicológicas, a dinamizar projetos comunitários, a elaborar perícias ou aplicar testes vocacionais. Sabe que não quer continuar na instituição onde queria ficar «só mais um ano», há sete. A formulação está correta. Se fosse um cliente, faria um resumo exemplar.
E, no entanto, nada muda.
De fora, parece faltar iniciativa. De dentro, é outra coisa: uma forma peculiar de lucidez que não produz movimento. A pessoa compreende as razões, os custos, as alternativas – compreende tudo – mas continua sentada no mesmo sítio.
Então faz o que sabe fazer melhor: pensa. Analisa competências, faz listas de prós e contras, pede supervisão, lê sobre transições, ouve colegas que «deram o salto». Ganha linguagem.
O que não ganha é movimento.
Sem dar por isso, adota a regra do só posso agir quando tiver a certeza. Só que a certeza total não existe antes da ação; só depois, quando já não faz falta. A informação que interessa não vem dos cenários imaginados, vem do atrito com o real: abrir o consultório, enviar a candidatura, falhar um pouco, perceber que afinal não era bem assim. Mas como não há dados suficientes para justificar o passo, o passo nunca acontece. Fica-se à espera de uma garantia que o mundo simplesmente não oferece (nunca ofereceu, aliás, a ninguém).
Entretanto há outra coisa a trabalhar, mais discreta: a habituação.
Tens um trabalho que não te entusiasma, mas és competente. As pessoas confiam em ti. Pagam a tempo. Nada disto é extraordinário, mas é estável – e a estabilidade tem um efeito anestésico. Dói pouco o suficiente para que a mudança deixe de parecer urgente.
— “Não é mau”, dizes. “Podia ser pior.”
E é verdade. Podia. Só que a pergunta a fazer não é comparativa. Não é se podia ser pior. É se é isto que queres fazer durante os próximos dez ou vinte anos. Essa pergunta é mais perigosa. Obriga a escolher. Obriga a perder coisas. Então começa a ser evitada.
Kafka, numa carta a Felice Bauer, descreveu o seu emprego no Instituto de Seguros como uma situação em que não era infeliz o suficiente para sair nem feliz o suficiente para ficar. Passou 14 anos nessa zona morna. Escreveu A Metamorfose enquanto lá estava, o que talvez explique a história de alguém que acorda transformado em inseto e, ainda assim, a primeira preocupação é não perder o comboio para o trabalho.
A certa altura, o papel profissional cola-se à identidade. Já não és alguém que faz avaliações – és «a pessoa das avaliações». Já não trabalhas numa instituição – és «a pessoa daquela instituição». Mudar de função passa a parecer uma ameaça ao próprio sentido de quem és.
Há ainda um medo muito humano: e se eu mudar e afinal não for assim tão bom? Enquanto ficas onde estás, sabes com o que podes contar. Noutra área podes ser medíocre. Podes ter menos clientes. Podes descobrir que não gostas tanto quanto imaginavas.
O bloqueio protege-te do fracasso – e, pelo mesmo preço, do crescimento.
Por isso o psicólogo parado não é alguém sem opções. É alguém com opções a mais e tolerância de risco a menos. O sofrimento agudo assusta, aparece de repente, exige respostas. A insatisfação crónica é mais educada: instala-se devagar, não faz barulho, e às tantas já faz parte da decoração.
Nada disto se resolve com mais reflexão. O que costuma faltar é experiência em pequena escala. Uma tarde por semana noutro contexto, uma candidatura enviada antes de estar «100% pronto», uma conversa com quem já atravessou a ponte. Pequenas hipóteses testadas no mundo real. Depois ver o que acontece. Ajustar. Repetir.
Estar perdido pede orientação. Estar parado pede movimento.
E, às vezes, o problema nem é o caminho. É o mapa. Não porque esteja errado, mas porque olhar para ele tornou-se a atividade principal. Há quem passe anos a aperfeiçoar o mapa, com a ilusão de que isso é viajar.
Mas mapas, por definição, são feitos por quem já saiu de casa.