PsiCarreiras

logo-psicarreiras
Blog

“O Dia tem 24h”, mas Porque Não Temos Tempo?

Não sei a sensação lhe é familiar, mas eu dou por mim a estar constantemente a queixar-me que não tenho tempo. A resposta que me surge perante muitas questões do quotidiano (ex., ir mais vezes ao ginásio, marcar mais momentos de convívio com família e amigos), desde as mais simples às mais importantes, é “Não tenho tempo”. E o plano de carreira para os próximos tempos? [Também] ainda não tive tempo…

É uma frustração e uma “desculpa” recorrente, algo que vale a pena esmiuçar, desacreditar e combater. Mas, para isso, há que reconhecer que a nossa vivência do tempo é algo que depende de fenómenos psicológicos e, como seres complexos que somos, temos de lidar com os nossos vieses. Diferentes fases de vida, diferentes vivências, diferentes perspetivas sobre nós próprios e o mundo moldam a nossa visão e capacidade de agir.

A Teoria da Perspetiva Temporal, de Zimbardo, descreve o tempo psicológico como um processo cognitivo, muitas vezes inconsciente, que organiza o conjunto de experiências humanas em categorias ou quadros temporais de passado, presente e futuro. Deste modo, é possível que o tempo ganhe outro significado e coerência. A literatura descreve cinco dimensões principais: passado positivo, passado negativo, presente hedonista, presente fatalista e futuro. Dependendo do modo como estamos orientados face ao tempo, estaremos influenciados para nos comportarmos e tomarmos decisões num determinado sentido. No fundo, a forma como assumimos riscos, definimos objetivos, nos posicionamos face aos estudos e trabalho, tomamos decisões de vida, é influenciada pela nossa perspetiva temporal (mesmo que não tenhamos consciência dela!). Segundo esta lente pela qual se encara o mundo, o ideal é que se combine uma orientação para o presente-hedonista, que nos permite desfrutar do momento atual, retirar prazer das nossas vivências, a uma orientação para o futuro, que nos leva a projetar em diante, fazer planos, sermos previdentes e a assumir riscos de uma forma preparada.

Não ignore a fase de vida e carreira em que está; reconheça-a e navegue de acordo com isso. Quando somos mais novos ou estamos numa fase inicial de carreira, encaramos o tempo como mais ilimitado, há uma perceção difusa, o que, de acordo com a Teoria da Seletividade Temporal de Carstensen, nos impulsiona mais para objetivos relacionados com o conhecimento (fazer mais formação, expandir horizontes), além de que conseguiremos estar mais focados no futuro. À medida que vamos avançando na vida (quer porque estamos mais próximos do fim expectável da nossa vida, quer seja por situações de doença ou outros constrangimentos), tendemos a, naturalmente, encarar o tempo como limitado – um bem valioso que não dura para sempre – e, com isso, as nossas emoções prevalecem, tendendo a sentirmo-nos mais motivados por e a orientarmo-nos mais para o que nos satisfaz no presente. É, por isso, útil reconhecermos que a nossa perceção de tempo subjetiva aplicada à carreira também se relaciona com as nossas vivências da fase de vida em que nos encontramos.

No fundo, planear o futuro implica ver a vida como um todo. Projetar a carreira para o futuro não deve ser dissociado de pensarmos em nós como pessoas inteiras, com diferentes papéis, diferentes dimensões de vida. Deste modo, há que incorporar no plano o envelhecer de forma saudável ou pensar na sustentabilidade financeira noutras fases da vida que ainda vemos como distantes.

Assim, quando ouvir o simplista “o dia tem 24 horas para todos”, lembre-se que:

  • Temos uma vivência cognitiva do tempo, que nos leva a ter diferentes orientações face ao passado, presente e futuro;
  • A perceção de tempo de vida restante também é um desencadeador motivacional para as nossas decisões e ações de vida e carreira;
  • O tempo é vivenciado por nós não num vácuo, mas numa estrutura real e dinâmica que é a nossa vida, por inteiro.

Deste modo, os caminhos que vamos seguindo na nossa carreira são tudo menos lineares, exigindo adaptações constantes e, de certo modo, uma certa compaixão pela forma como estamos a experienciar o tempo a cada momento.

Para terminar, deixo uma ideia para reflexão (e depois ação!): experimente ver quantas semanas lhe restam (até ao fim do ano, até ao fim da vida) e pense no que gostaria de fazer com elas. O que pode fazer já esta semana? E nas próximas 12 semanas? Num ano, temos 52 oportunidades para agir, 52 cartas num baralho para jogar. Qual a sua próxima jogada?