
Ah, o início de um novo ano… Essa página em branco que, por esta altura, preenchemos com uma lista das nossas melhores intenções de mudança para os 12 meses seguintes. E que, frequentemente, arquivamos algures durante esses 12 meses, na expetativa de as revisitar no início do ano seguinte, dessa vez com melhores resultados… soa familiar?
Naturalmente, a ciência psicológica debruçou-se sobre o tema das resoluções de Ano Novo não cumpridas, e tem coisas a dizer sobre este tema.
Nomeadamente, sabemos que pesquisas no google incluindo os termos “dieta”, “ginásio” e afins aumentam a seguir a marcos temporais significativos, como o início de um novo ano/mês/semana, ou após um aniversário. Segundo os autores deste estudo (1), a popularidade das resoluções de Ano Novo sugere a existência de um “efeito novo começo”, que permite colocar o contador a zero relativamente a percalços anteriores. No fundo, uma espécie de mentalidade de “agora é que é!”
Contudo, um outro estudo (2) que acompanhou as resoluções de Ano Novo de 200 participantes ao longo do tempo, concluiu que estas eram mantidas apenas por 77% dos participantes ao fim de uma semana, por 55% ao fim de um mês, por 40% ao fim de seis meses e por 19% ao fim de dois anos. Ou seja, a maior parte das resoluções de Ano Novo fica pelo caminho, muitas delas logo no início do percurso. O que, convenhamos, não é muito animador.
Ainda, num outro estudo (3) sobre o mesmo tema, mais de metade dos participantes relatou ter feito uma resolução igual ou semelhante à atual no ano anterior. Isto sugere que as resoluções de Ano Novo muitas vezes refletem objetivos que, talvez por serem difíceis de atingir, são reciclados de uns anos para os outros.
Mas talvez a questão mais relevante seja outra: o que é que faz a diferença no cumprimento ou não destas resoluções? Também aqui, a ciência psicológica aponta algumas direções.
Um fator relevante (4) pode ser a combinação de objetivos em diferentes níveis hierárquicos, e o foco simultâneo nesses diferentes níveis. Ou seja, se as resoluções de Ano Novo forem consistentes com, por exemplo, valores pessoais significativos, a adesão a essas resoluções torna-se mais sustentável, sobretudo a longo prazo. É o caso da pessoa que resolve iniciar uma prática regular de exercício físico porque essa resolução está alinhada com o desejo de manter um estilo de vida saudável, e de viver com mais qualidade durante mais tempo.
Outro fator relevante (5) pode ser o tipo de motivação subjacente às resoluções, ou seja, se o cumprimento de determinada resolução é um meio para atingir um fim – motivação extrínseca – ou um fim em si mesmo – motivação intrínseca. Por exemplo, a prática regular de exercício físico é um meio para obter benefícios de saúde, ou é uma atividade que proporciona prazer em si mesma? Muitas vezes, o estabelecimento de uma resolução tem na base uma motivação extrínseca. Contudo, quando consideramos a adesão a essa resolução, a motivação intrínseca pode ser um melhor preditor. É o caso da pessoa que começa a praticar exercício físico para obter benefícios em termos de saúde, mas que só consegue manter essa prática ao longo do tempo por ter passado a ter prazer em fazê-lo.
Finalmente, no que toca à operacionalização das nossas resoluções, podemos, uma vez mais, recorrer aos contributos da psicologia.
Nomeadamente, sabemos que objetivos vagos são mais suscetíveis de insucesso, e que os objetivos são mais úteis quando formulados de forma SMART (6) (Specific, Measurable, Attainable, Relevant e Time-bound). Sabemos também que situar os nossos objetivos num futuro distante é mais suscetível de levar ao adiamento dos esforços para os atingir, e que estabelecer objetivos mais próximos no tempo permite mobilizar mais eficazmente os nossos esforços no aqui e agora. Sabemos ainda que os objetivos complexos ganham em ser decompostos em objetivos mais pequenos. Portanto, em vez de expressar um desejo de “passar a praticar regularmente exercício físico”, podemos estabelecer o objetivo de “caminhar 30 minutos, 3 vezes por semana, durante um período de 3 meses, começando agora”, e seguir a partir daí.
Aqui chegados, e sendo este o nosso último texto do ano, gostaríamos de desejar um 2026 em que todos consigamos levar à prática as mudanças que pretendemos, utilizando da melhor maneira os conhecimentos e ferramentas de que dispomos. Um excelente 2026 para todos!
(1) Dai, H., Milkman, KL., & Riis, J. The fresh start effect: Temporal landmarks motivate aspirational behavior. Management Science, 2014; 60(10), 2563–2582.
(2) Norcross JC., Vangarelli DJ. The resolution solution: Longitudinal examination of New Year’s change attempts. J Subst Abuse. 1989; 1(2):127–134.
(3) Dickson JM, Moberly NJ, Preece D, Dodd A, Huntley CD. Self-Regulatory Goal Motivational Processes in Sustained New Year Resolution Pursuit and Mental Wellbeing. Int J Environ Res Public Health. 2021 Mar 17;18(6):3084. doi: 10.3390/ijerph18063084. PMID: 33802749; PMCID: PMC8002459.
(4) Höchli, B.; Brugger, A.; Messner, C. Making New Year’s Resolutions that Stick: Exploring how Superordinate and Subordinate Goals Motivate Goal Pursuit. Appl. Psychol. Health Well Being 2020, 12, 30–52.
(5) Woolley, K., Giurge, L. M., & Fishbach, A. (2025). Adherence to Personal Resolutions Across Time, Culture, and Goal Domains. Psychological Science, 2025. 36(8), 607-621. https://doi.org/10.1177/09567976251350960
(6) Doran, G T, There´s a SMART way to write management´s goals and objectives, ManageRev.1981;70