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Don’t be yourself: Porque o “sê tu mesmo” pode ser um péssimo lema no mundo do trabalho

“Just be yourself” (apenas sê tu mesmo) é, provavelmente, uma das expressões paradigmáticas do culto contemporâneo da transparência e da autenticidade.

Por vezes, a Ciência contraria o zeitgeist. Ainda que pareçam empoderadores, lemas como o “sê tu mesmo”, quando interpretados de forma literal ou ingénua, podem afastar-nos de tomar melhores decisões, de construir relações baseadas no respeito e, inclusive, de crescer profissionalmente.

O psicólogo Tomas Chamorro-Premuzic1 descreve quatro armadilhas associadas à autenticidade que podem ser contraproducentes em entrevistas de trabalho, na convivência com colegas, na liderança de equipas e no progresso na carreira:

1. Sê sempre honesto contigo mesmo e com os outros

Parece um bom lema, certo? O problema é que, por vezes, não somos honestos connosco próprios. Não porque estejamos deliberadamente a enganar-nos, mas porque tendemos a acreditar que o que pensamos sobre nós reflete perfeitamente a realidade – o efeito psicológico Better-Than-Average2 ajuda a explicar este fenómeno. Se somos peritos em contar histórias convenientes sobre nós mesmos, ser honestos pode apenas significar que estamos em piloto automático.

Quanto a sermos radicalmente honestos com os outros, boa sorte: Sugiro que, na próxima semana, digamos tudo o que nos vem à cabeça numa entrevista de emprego ou nas interações com quem trabalhamos (clientes, colegas, chefias, etc.). Aguardo os resultados desta experiência social nos comentários para tirarmos conclusões… e atualizarmos os nossos currículos. 

2. Sê fiel aos teus valores, segue sempre o teu coração

Bem, depende dos valores. Se já vimos uma série de True Crime, sabemos o que acontece quando um psicopata segue o seu coração. Mesmo que consideremos que os nossos valores são nobres, podem estar desalinhados com os das pessoas com quem trabalhamos ou com a visão da organização, criando obstáculos à cooperação e ao alcance de objetivos comuns.

Podemos sempre questionar os valores que orientam as nossas ações e estar abertos ao diálogo – é esta flexibilidade que nos permite ajustar ao que o contexto exige. Se a justiça, a responsabilidade para com os outros e a humildade são valores que nos orientam, talvez estejamos mais perto de uma autenticidade responsável, isto é, aquela que concilia quem somos com o impacto que temos nos outros.

3. Não te preocupes com o que as pessoas pensam de ti

Claro, um clássico. No entanto, a nossa reputação social (isto é, a perspetiva das pessoas à nossa volta sobre quem somos e as nossas competências), tende a ser mais determinante para a progressão na carreira do que nosso autoconceito. Isto quer dizer que devemos sempre tomar as decisões de forma a agradar a opiniões alheias? Not really. Mas podemos reconhecer que a nossa imagem profissional importa, assim como o feedback (construtivo)das outras pessoas sobre nós é relevante para melhorarmos.

Se não nos preocuparmos com o que os outros pensam, podemos ficar presos na imagem que temos de nós próprios, a qual, como já vimos em cima, pode ser bastante enviesada.

4. No trabalho, sê completamente quem tu és

Mas se não formos nós, quem vamos ser? Um ator? Uma impostora? Não é bem isso: ser totalmente quem somos pode ser problemático porque nem todas as nossas crenças e reações emocionais são pertinentes e recompensadas. Inclusivamente, podem prejudicar-nos quando não existe um ambiente de trabalho psicologicamente seguro3.

Ser quem somos necessita de intenção, para que, ao expressarmo-nos, não estejamosapenas a despejar tudo o que sentimos ou pensamos sem filtro. Ainda, não quer dizer que tenhamos de inventar toda uma persona, significa antes que há aspetos de nós que pertencem a outros contextos (à família, ao grupo de amigos, etc.) e que o “eu profissional” é uma versão intencional de quem somos, garantindo eficácia e integridade no que fazemos.

Referências:

1 Chamorro-Premuzic, T. (2025). Don’t Be Yourself: Why Authenticity Is Overrated (And What To Do Instead). Harvard Business Review Press.

2 Zell, E., Strickhouser, J., Sedikides, C., & Alicke, M. (2019). The better-than-average effect in comparative self-evaluation: A comprehensive review and meta-analysis. Psychological Bulletin, 146(2), 118–149.

3 Edmondson, A. C., & Lei, Z. (2014). Psychological safety: The history, renaissance, and future of an interpersonal construct. Annual Review of Organizational Psychology and Organizational Behavior, 1, 23‑43.