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Diversidade, Equidade e Inclusão: Vamos a factos?

“Diversidade”, “Equidade” e “Inclusão” são três conceitos que, até há relativamente pouco tempo, julgávamos consensuais enquanto valores a promover. Em tempos mais recentes, infelizmente, estes consensos têm vindo a desfazer-se e os valores que representam encontram-se sob uma ameaça que tenderá a ser global. A nós, psicólogos, esta discussão interessa-nos e muito – porque impacta diretamente a nossa ciência e a nossa prática, e porque estes valores se encontram muito alinhados com os princípios éticos da psicologia. Cabe-nos então participar da discussão e fazê-lo, preferivelmente, de uma forma construtiva e sustentada em factos. O que é mais fácil quando estamos munidos dessa informação.

Muita da campanha contra estes valores assenta na ideia de que estes implicam selecionar pessoas com base na sua pertença a um grupo, independentemente da sua competência. Tal resultaria na seleção de candidatos incompetentes devido à sua pertença a determinados grupos. Contudo, na verdade, trata-se de selecionar a pessoa mais competente, independentemente do grupo a que pertence. Ou seja, pretende-se assegurar que candidatos menos competentes de grupos mais privilegiados não são favorecidos face a candidatos mais competentes de grupos menos privilegiados.

De forma consistente com esta ideia, e tomando como exemplo a produção de ciência, a evidência demonstra que a diversidade, equidade e inclusão permitem a produção de melhor ciência – seja nas ciências exatas, sociais, humanas ou da saúde. Porquê?

  • Inovação. Equipas de investigação com maior diversidade consideram mais alternativas, resolvem problemas de forma mais criativa, tomam melhores decisões e fomentam a inovação. Tal é particularmente relevante em áreas científicas que requerem interdisciplinaridade (ciências climáticas, investigação biomédica, inteligência artificial…). Por exemplo, um estudo demonstra que artigos produzidos por equipas etnicamente mais diversas são mais citados, indicando maior impacto e influência. Contudo, de acordo com o mesmo estudo, os membros das equipas partilham a mesma etnicidade com maior probabilidade do que aconteceria por acaso. Outro estudo demonstra que inovações científicas produzidas por cientistas de grupos maioritários geram carreiras de maior sucesso do que inovações comparáveis produzidas por cientistas de grupos minoritários.
  • Representatividade. Determinadas questões afetam desproporcionadamente determinadas populações. Cientistas provenientes dessas populações têm maior probabilidade de querer investigar essas questões.  Este é o caso de questões que afetam: 1) mulheres: entre outras questões de saúde sexual e reprodutiva que foram relativamente pouco estudadas, podemos destacar a o caso da endometriose, que afeta uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva, e que teve a primeira terapia oral combinada licenciada apenas em 2025; 2) minorias étnicas: a anemia falciforme, que afeta sobretudo comunidades negras, teve a sua primeira terapia genética estabelecida apenas em 2019; 3) não surpreendentemente, mulheres de minorias étnicas: a maior probabilidade de as mulheres negras e asiáticas morrerem durante a gravidez ou o parto, face às mulheres brancas, tornou-se amplamente conhecida apenas em 2018.
  • Confiança. A diversidade no design da investigação é o que permite obter resultados que se aplicam a todas as populações. Por exemplo, a realização de ensaios clínicos sobretudo com homens traduz-se em piores resultados ao nível da saúde das mulheres. Sendo que a diversidade nas equipas de investigação aumenta a disponibilidade das comunidades minoritárias para participarem em ensaios clínicos, ou para aceitarem os resultados da investigação como relevantes para si.

Voltando aos psicólogos… A relevância das questões acima está vertida no nosso Código Deontológico, onde se lê que, quando desenvolvem uma prática dirigida a elementos de minorias ou pertencentes a populações vulneráveis e/ou estigmatizadas, os psicólogos “procuram obter conhecimento profissional e científico relevante para intervir de forma ética, sensível e eficaz. Nesse sentido, exercem a sua prática de acordo com a evidência empírica e conhecimento científico específico para a intervenção com essas pessoas ou grupos” (5.10 — Minorias e populações vulneráveis e/ou estigmatizadas). Assim, reconhece-se que “tratar todas as pessoas por igual”, sem considerar o que é específico de um grupo minoritário é, na prática, tratar pior os elementos desse grupo minoritário. E que os tais valores de “Diversidade”, “Equidade” e “Inclusão” representam, na prática, “tratar as pessoas de forma diferente de acordo com as diferenças relevantes”, contribuindo, dessa forma, para “a promoção da dignidade humana e de princípios de justiça social e de equidade” (5.9 — Não discriminação)