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Democracia e Psicologia, uma história de amor: e viveram felizes para sempre?

Não será novidade para ninguém que a emancipação da Psicologia em Portugal, enquanto ciência e profissão autónoma, foi relativamente tardia em comparação com outros países europeus. Porquê? Respondendo em poucas palavras: porque para que tal acontecesse foi preciso um contexto político e cultural que o permitisse.

Efetivamente, antes de 1974, o regime político vigente – autoritário e promotor da defesa da ordem social tradicional – dificilmente seria um contexto acolhedor para o desenvolvimento das ciências sociais e humanas e, entre elas, da Psicologia. Naturalmente, num contexto político que só prospera na medida em que cada um aceite cumprir o “destino” que lhe calhou, eram privilegiadas as áreas consideradas úteis e seguras para esse objetivo, e consideradas problemáticas todas as que pudessem levar a que se questionasse o status quo, as desigualdades sociais ou a autoridade. Assim, o enquadramento político do país nesse período teve impactos muito prejudiciais quer ao nível da produção de ciência psicológica, quer ao nível da afirmação da prática profissional dos psicólogos.

Relativamente à ciência, é relevante referir o forte controlo do Estado sobre as Universidades e a falta de liberdade académica, com o decorrente desencorajamento da investigação e do ensino, particularmente ao nível de temas “sensíveis”. É também importante referir o isolamento internacional durante esse período, bem como a repressão da entrada e circulação de ideias, com Portugal à margem de centros científicos e redes académicas internacionais, o que atrasou ou negou aos psicólogos portugueses o acesso a conhecimento científico atualizado, particularmente em áreas “incómodas”. 

Relativamente à prática profissional dos psicólogos, além de ter sofrido as consequências das restrições descritas ao nível científico, não podemos deixar de destacar um conjunto de impactos diretos. Afinal, falamos de uma área que, nas diferentes vertentes da sua prática, pretende promover a reflexão dos indivíduos, famílias, grupos, organizações e/ou comunidades, sobre si próprios e as suas circunstâncias, de forma a reforçar o exercício da sua autonomia. E é fácil perceber o quanto, num regime autoritário, a promoção da autonomia do outro é uma atividade subversiva.

Só depois de 1974, com a abertura de Portugal a novas ideias, a expansão do ensino superior, a multiplicação de cursos de Psicologia, a saída para o mercado de trabalho dos primeiros psicólogos made in Portugal e o reconhecimento da Psicologia enquanto área científica reconhecida e enquanto profissão autónoma – que mais tarde culmina na criação da Ordem dos Psicólogos Portugueses – pudemos assistir ao nascimento, ao crescimento e à emancipação da Psicologia conforme a conhecemos hoje.

Vem tudo isto a propósito do Democracy Report 2026 do Instituto V-Dem da Universidade de Gotemburgo – uma das fontes de informação globais mais credíveis sobre a saúde democrática das nações. Este instituto tem vindo a monitorizar a saúde democrática de 202 países e territórios de acordo com um conjunto de métricas – por exemplo, “liberdade de expressão académica e cultural”, “eleições livres e justas”, “leis transparentes com aplicação previsível”.  Concluiu que, globalmente, a democracia retrocedeu a níveis equiparáveis aos de meados da década de 70 do século passado, tendo, atualmente o maior número até agora de países em processo de autocratização simultânea.

As conclusões relativas aos EUA são particularmente preocupantes, estimando-se que Trump conseguiu em um ano o nível de supressão democrática que Orbán conseguiu em quatro na Hungria, Vucic conseguiu em oito na Servia, e Erdogan e Modi conseguiram em dez na Turquia e na India, respetivamente. Neste processo de autocratização, em comparação com outras áreas científicas e profissionais, as ciências sociais e humanas e as práticas com elas relacionadas têm sido particularmente afetadas, e a Psicologia não é exceção. A American Psychological Association (APA) tem vindo a acompanhar e a partilhar informações relevantes face a estas novas circunstâncias e a procurar envolver e mobilizar os psicólogos americanos para agirem face às mesmas.

Voltando ao nosso país…. A história da Psicologia em Portugal não pode ser compreendida sem ser em relação com a história da Democracia portuguesa. A história desta relação – uma história de amor – não chegou ainda ao seu último capítulo – o tal “e viveram felizes para sempre”. Pelo contrário, continua a ser escrita, continuamente, por todos nós. Sendo que, para os psicólogos, esta história tem a ver não só com o tipo de sociedade em que queremos viver, mas também com o tipo de sociedade em que, enquanto ciência e profissão, podemos crescer e prosperar. Tenhamos isso em mente.