
Culturalmente, a curiosidade até pode ter má fama (com provérbios como “a curiosidade matou o gato”) e ser desincentivada, mas é, na realidade, um aspeto bastante positivo no crescimento pessoal e desenvolvimento profissional.
Além de a podermos encarar como algo mais estável, ou traço de personalidade (como uma apetência para a novidade, para explorar, questionar e procurar a aprendizagem), este também é um estado psicológico impulsionado pela motivação, sendo ainda uma das quatro dimensões da adaptabilidade de carreira (conforme Mark Savickas nos apresenta na sua Teoria da Construção de Carreira).
Assim, a curiosidade é algo que podemos, e devemos, cultivar, e que nos pode trazer ganhos no desenvolvimento e construção de carreira.
No autoconhecimento, a curiosidade leva-nos a projetar futuros selfs, a pensar vários percursos possíveis de carreira – que psicólogo(s) poderei vir a ser ao longo da vida? Pode ainda levar-nos a pensar o que é, de facto, ser psicólogo? De entre tantas possibilidades, que psicólogo quero ser?
Na exploração, a curiosidade faz-nos identificar novas oportunidades profissionais, podendo olhar o mercado de trabalho atual – Onde pode a psicologia [que pratico] acrescentar valor? Que competências estão a ser requeridas? E, dessas, quais já tenho, quais quero evidenciar e/ou desenvolver?
Na identificação de novas oportunidades profissionais, leva-nos a estarmos atentos ao que acontece além do nosso contexto habitual, ou move-nos para contactar colegas que trabalham noutras áreas (na Psicologia, ou fora dela), a participar em congressos e outros eventos formativo-profissionais, a seguir avanços de investigadores ou publicações de referência na nossa área de interesse (ou, indo mais além: fora da nossa área de interesse). Podemos ainda pesquisar novas necessidades na região onde estamos a trabalhar.
Na aprendizagem contínua e atualização científica, é a curiosidade que nos impulsiona a procurar novas informações, questionar o que já sei, encontrar explicações alternativas. Que novas evidências existem sobre este tema que conheço, mas que estudei já há uma década? Há instrumentos melhores para esta nova necessidade que me surge?
Na ampliação das redes profissionais e aprendizagem com os outros, podendo levar-nos a conhecer melhor as pessoas, colocando questões muito práticas como: Como chegaste a esta área? Como conseguiste esse trabalho? Que competências são mais importantes nessa área? Qual a última formação que frequentaste que realmente te fez evoluir?
Na tolerância à incerteza e na gestão face às transições, podendo ajudar-nos a encarar potenciais ameaças com curiosidade (“vou entender melhor isto que (me) está a acontecer, para me posicionar”, bem como pensando que se a incerteza traz novidade, a novidade traz novos elementos para conhecermos e explorarmos.
Na melhoria contínua da prática profissional da psicologia, através do questionamento e procura pela inovação. Porque se faz desta forma? Será que existem outras abordagens? Como estão outros colegas a lidar com esta problemática?
Em suma, a curiosidade favorece a exploração (do próprio e do mundo), a aprendizagem, a adaptação, a criação de oportunidades, a inovação e boas práticas profissionais, e, deste modo, o desenvolvimento pleno de carreira. Assim, reconhecendo esta ligação tão vantajosa, como posso cultivar a curiosidade em mim, como psicólogo/a? Mais do que aprender coisas novas, trata-se de estarmos abertos, atentos e ativamente em movimento em direção à novidade, criando oportunidades de crescimento pessoal e profissional.