
Pretendo partilhar uma recente reflexão acerca do EuroPsy — Certificado Europeu de Psicologia — e sobre o modo como as suas competências se articulam com a gestão pessoal de carreira dos psicólogos.
O EuroPsy (Certificado Europeu de Psicologia) é um sistema de certificação desenvolvido pela European Federation of Psychologists’ Associations (EFPA). O seu objetivo é garantir que os psicólogos na Europa cumprem um conjunto de standards comuns em termos de formação e competência profissional, promovendo assim a qualidade dos serviços psicológicos e a mobilidade profissional entre países.
Os seus princípios orientadores assentam na disponibilidade de serviços psicológicos de qualidade, proteção dos consumidores e do público, equidade no acesso à certificação e respeito pelos regulamentos nacionais. Além disso, a certificação exige formação sólida, prática supervisionada e revalidação periódica, reforçando a importância do desenvolvimento profissional contínuo.
O modelo de competências do EuroPsy estrutura-se em três dimensões: competências funcionais, competências fundamentais e atitudes. As competências funcionais descrevem as principais ações dos psicólogos ao longo do ciclo de resolução de problemas: identificar necessidades, clarificar objetivos, planear, implementar e avaliar intervenções. As competências fundamentais, por sua vez, sustentam todas as práticas psicológicas. Incluem ética e padrões profissionais, comunicação interpessoal, pensamento científico, colaboração interdisciplinar, sensibilidade cultural, uso adequado das tecnologias, auto-reflexão e auto-cuidado. Por fim, as atitudes refletem o modo como o psicólogo se posiciona no mundo e com os outros — curiosidade, empatia, flexibilidade, colaboração, consciência e compromisso com a melhoria contínua.
Mas o que têm estas competências a ver com a gestão de carreira dos psicólogos?
Na realidade, muito.
A gestão pessoal de carreira, é um processo ativo e autorregulado, no qual “é a pessoa, não a organização ou outra entidade, que gere e regula esse processo” (Faria e Queirós, 2021, p.20). Isto significa que o psicólogo deve assumir um papel proativo, nomeadamente refletindo sobre as suas competências: quais já possui, quais precisa fortalecer e como o pode fazer.
Stickland (1996) designa gestão pessoal de carreira como um processo contínuo de decisão, aprendizagem e crescimento, no qual o indivíduo define o seu percurso profissional de forma autónoma e estratégica. Assim, mais uma vez, falamos da capacidade de análise, planeamento e desenvolvimento contínuo do psicólogo. Tanto o desenvolvimento de competências, como a gestão pessoal de carreira, têm um carácter dinâmico ao longo do ciclo de desenvolvimento profissional dos psicólogos.
Por último, acrescento a esta reflexão, o modelo da construção da vida (Duarte et al., 2009), que propõe que a carreira é uma parte integrada da narrativa pessoal de cada um. Isto porque, não devemos encarar o desenvolvimento de competências apenas como o cumprimento de requisitos formais, mas também como parte da construção de um projeto de vida coerente, sustentável e significativo no âmbito da gestão pessoal de carreira de cada psicólogo.
O EuroPsy oferece-nos um quadro europeu de referência; a gestão pessoal de carreira convida-nos a um percurso individual e reflexivo. Assim, é como se o modelo de competências do Europsy funcionasse como uma matriz a ter em conta na nossa gestão pessoal de carreira. Ambos, reforçam a autonomia, a responsabilidade e a excelência da Psicologia enquanto ciência e profissão.
Referências bibliográficas:
Duarte, M. E., Lassence, M. C., Savickas, M. L., Nota, L., Dauwalder, J. R. J., Soresi, J. G. S., Esbroeck, R. V., & Vianen, A. E. M. (2009). A Construção da Vida: Um Novo Paradigma para Entender a Carreira no Século XXI. Revista Interamericana de Psicología, 44(2), 392–406.
European Federation of Psychologists’ Associations (EFPA). (s.d.). EuroPsy – European Certificate in Psychology. Disponível em www.europsy.eu
Faria, L., & Moura Queirós, A. (2021). Gestão Pessoal de Carreira: Guia Teórico-Prático. Lisboa: Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Stickland, R. (1996). Career Self-Management: Can We Live Without It? European Journal of Work and Organizational Psychology, 5(4), 583–596.
Ordem dos Psicólogos Portugueses (2021). Contributo Científico OPP para o Livro Verde do Futuro do Trabalho. Lisboa.