PsiCarreiras

logo-psicarreiras
Blog

A Psicologia das Massas e o Comportamento Eleitoral

Com a existência de uma polarização política cada vez mais acentuada em todo o mundo, onde Portugal não é exceção (sendo disso exemplo os resultados evidenciados nas últimas eleições legislativas), a psicologia das massas ou psicologia das multidões, estudada por diversos autores, adquire particular relevância nos últimos anos, uma vez que nos ajuda a compreender a dinâmica do comportamento humano em grupos, a qual, muitas vezes é diferente do que seria de forma individual.

Freud foi um dos autores que a estudou. Freud analisou a psicologia das massas através da psicanálise, destacando a importância do inconsciente coletivo e do poder do líder em influenciar a emoção das massas. A teoria freudiana sobre este tema sugere, por exemplo, que a pertença a um grupo, pode reduzir as barreiras do ego, levando a uma maior influência do inconsciente e a um comportamento mais passivo e influenciável. O efeito de “massa” oferece ao indivíduo uma figura de autoridade (o líder) que substitui o papel parental, ativando mecanismos inconscientes de identificação. A pessoa acaba por abrir mão do seu sentido crítico, sendo totalmente influenciada pela psique coletiva. Este entendimento freudiano é especialmente relevante quando se analisa a ascensão de alguns líderes carismáticos e a propagação de determinadas ideologias mais radicais. 

Gustave Le Bon, considerado um dos fundadores da psicologia social e da psicologia política, foi outro autor que a estudou. Le Bon investigou as características psicológicas das multidões, destacando que o comportamento individual se transforma em grupo, com a perda da razão e a emergência de emoções e impulsos coletivos. Influenciado pelos ideais de um grupo, o indivíduo passa a agir impulsivamente, cometendo atos que não cometeria de forma individual. Segundo Le Bon, a “massa” é movida por emoções e não pela razão, de forma que se torna facilmente manipulável por esses líderes.

Se formos a ver, isso evidencia-se muito, por exemplo, em períodos de campanha eleitoral, onde a psicologia das massas é utilizada para moldar perceções e decisões de voto. O comportamento conflituoso que muitas vezes se observa entre partidários de diferentes campos políticos, tanto nas ruas como nas redes sociais, foi chamado por Freud de “identificação” com o grupo, e as suas consequências são facilmente percebidas nesses períodos eleitorais. Essa identificação cria uma conexão emocional, de tal forma que as pessoas passam a ver as críticas aos seus candidatos ou partidos, como ataques pessoais. O grupo político torna-se uma extensão do ego individual, e qualquer crítica externa é sentida como uma ameaça à própria identidade. É como se, ao fazer parte de um grupo político, o eleitor abandonasse a sua capacidade crítica individual, para adotar uma visão coletiva. Nessa perspetiva, o conflito por vezes gerado nas campanhas políticas, pode ser entendido como uma consequência direta da psicologia de massas.

A manipulação das massas é uma estratégia antiga e que se manifesta de diversas formas, como a propaganda, a linguagem persuasiva e a utilização de símbolos e rituais. As redes sociais e a comunicação massificada facilitam, atualmente, ainda mais a disseminação de mensagens à escala global, criando bolhas de opinião e polarizando a sociedade. 

Esta crescente polarização e a disseminação de fake news, são exemplos de como a psicologia das massas pode ser utilizada para fins destrutivos, nomeadamente nas campanhas eleitorais.

É usada por movimentos políticos populistas, nacionalistas ou revolucionários para mobilizar apoio. Apelos emocionais fortes (medo, raiva, orgulho) são mais eficazes do que argumentos racionais.

O estudo da psicologia das massas e a compreensão dos mecanismos psicológicos envolvidos neste tipo de comportamentos, é fundamental para se entender a complexidade das relações sociais, a influência dos grupos e a disseminação de ideias, permitindo um olhar mais crítico e informado sobre os fenómenos sociais e políticos dos nossos tempos.

Nunca tão importante se tornou o estudo destes fenómenos, sendo cada vez mais relevante uma consciência global para os mecanismos de manipulação que a psicologia das massas pode gerar e uma maior compreensão para as mobilizações massivas em contextos sociais complexos e em rápida transformação, bem como a necessidade de repensar a intervenção social e até educativa.

Se queremos continuar a viver numa sociedade aberta, inclusiva e democrática, temos de começar por fazer uma profunda reflexão e autocrítica, explorar muito mais este tema e fazer afirmar ainda mais a Psicologia neste domínio, pois não é acusando os populistas de populismo que conseguiremos trilhar outro rumo para a nossa sociedade. Parece-me que a solução não está propriamente em combater a oferta mas, sim, em eliminar a procura.