
“Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.”
Esta frase de Fiódor Dostoiévski, surge no início do segundo e-book PsiCarreiras “Carreira Em Psicologia, num mundo imprevisível – pistas para “navegar” com confiança e adaptabilidade” e remete-nos para os nossos sonhos, para o caminho que acreditamos que nos fará “cumprir” enquanto pessoa, o nosso espaço de liberdade. No entanto, se o desejo de cumprir os nossos sonhos pode ser um impulsionador de ação, a imprevisibilidade do futuro é contraditória à necessidade humana de controlo e previsibilidade, por isso, é natural que ao longo da nossa carreira, nas suas várias fases, esta incerteza, esta imprevisibilidade nos traga ansiedade, medo e inércia.
Estamos numa era em que as oportunidades de carreira são cada vez maiores, as carreiras são cada vez mais longas, menos lineares e por isso mais diversas. O que aumenta o desafio individual de “navegação”, nomeadamente, os desafios associados à necessidade de adaptabilidade são maiores e o exercício de conciliação entre um percurso decorrente das oportunidades que nos surgem (num mundo sempre em movimento), alinhado e em equilíbrio com as nossas aspirações pessoais, torna-se mais exigente.
Esta realidade está associada à carreira dos/as psicólogos/as, mas é transversal a todas as carreiras e evidencia, cada vez mais, o importante papel dos serviços de orientação/aconselhamento vocacional e de carreira, assim como a importância da criação de políticas publicas centradas no desenvolvimento de carreira, implementadas o mais cedo possível e que acompanham cada individuo ao longo da ciclo de vida.
Como podemos ler no EU reference framework for lifelong guidance. 18 guidelines for policy and systems development, estas políticas publicas devem contribuir para que de forma precoce o individuo possa identificar as suas necessidades de aprendizagem e de carreira, mantendo-se informado sobre as mudanças e oportunidades no mercado de trabalho, que consiga atualizar as suas competências e que invista nas qualificações que possam ser valorizadas no mercado de trabalho, dentro e fora do seu país.
Em resposta a estes desafios, o Centro Europeu para o Desenvolvimento da Formação Vocacional (CEDEFOP) desenvolveu um quadro de referência abrangente e um conjunto de orientações políticas para a colaboração entre partes interessadas no desenvolvimento de políticas e sistemas de orientação ao longo da vida. Este documento publicado em março de 2026, identifica 18 guidelines, divididas em três eixos, orientações transversais, sectoriais e de inclusão social. Faço um breve resumo abaixo, que não substitui a leitura do documento integral:
Orientações transversais:
(1) Competências de gestão de carreira
(2) Acesso à orientação ao longo da vida
(3) Garantia da qualidade da orientação ao longo da vida
(4) Sistemas e desenvolvimento de políticas baseados em evidência
(5) Governação e liderança estratégica: cooperação e coordenação
(6) Informação de carreira na orientação ao longo da vida
(7) Profissionalismo na orientação ao longo da vida
(8) Financiamento dos serviços de orientação ao longo da vida
(9) Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) na orientação ao longo da vida
Orientações setoriais (sete orientações)
(10) Orientação ao longo da vida para alunos do ensino básico e secundário
(11) Orientação ao longo da vida para formandos do ensino e formação profissional (EFP)
(12) Orientação ao longo da vida para estudantes do ensino superior
(13) Orientação ao longo da vida para adultos em aprendizagem
(14) Orientação ao longo da vida para trabalhadores
(15) Orientação ao longo da vida para pessoas desempregadas
(16) Orientação ao longo da vida para adultos mais velhos
Dimensão de inclusão social (duas orientações)
(17) Orientação ao longo da vida para jovens em risco
(18) Orientação ao longo da vida para grupos vulneráveis
Desafio assim todos os leitores, a explorar estas 18 guidelines, em particular os colegas de profissão que diariamente contribuem, através da prestação de serviços de qualidade, para que tantas crianças, jovens e adultos, ao longo dos seus ciclos de vida, não fiquem em gaiolas, contribuindo para uma descoberta de forma apoiada, munida de ferramentas que os fará voar, num espaço de incertezas.
Nota final: para aprofundar o papel da Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento de Carreira, sugiro a leitura do Documento orientador para o processo de especialidades profissionais, elaborado pelo Conselho de Especialidade de Psicologia da Educação, disponível aqui.