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O que os Jogos Olímpicos de Inverno nos ensinam sobre sucesso, fracasso e saúde mental

Os Jogos Olímpicos de Inverno decorreram no mês de fevereiro em Itália, entre as cidades de Milão e Cortina d’Ampezzo, e têm vindo a ser partilhadas histórias impactantes sobre a saúde mental de atletas de alto desempenho, à semelhança do que aconteceu já em Paris, em 2024, por atletas como Simone Biles e Rayssa Leal. Estas partilhas surgem como uma lupa sob os bastidores da preparação para um dos momentos altos da carreira destes atletas, que vão além da competição olímpica, das medalhas e das celebrações. São anos de preparação, de expetativas e de uma comparação constante com os homólogos de cada país. Estes fatores determinam níveis de ansiedade, depressão e stress que colocam os atletas em situações de vulnerabilidade comparáveis à população geral em momentos de fracasso ou transição de carreira. A adicional competitividade e expetativa de desempenho acima da média traduz-se num aumento exponencial desses fatores, o que nos direciona para o paradoxo entre aquilo que é apresentado ao público e o nível de bem-estar físico e emocional real destas pessoas.

A evidência científica assume a interação positiva entre a capacidade para utilizar determinados recursos psicológicos com o desempenho em contextos de alta competição. A boa gestão da ansiedade e altos níveis de resiliência são determinantes para obter melhores resultados, já que potenciam a autoconfiança e, concomitantemente, o desempenho dos atletas. O programa REST USA, implementado pelos profissionais de Psicologia do Comitê Olímpico e Paralímpico dos Estados Unidos em Milano-Cortina, tem por base a terapia cognitivo-comportamental, direcionada para a intervenção na insónia, na expetativa de mitigar as consequências do jet lag na performance dos atletas. Adicionalmente, esta equipa de saúde mental desenvolveu ainda um plano de emergência psicológico no âmbito de competições, a ativar aquando de crises de saúde mental por parte dos atletas.

Vejamos os exemplos de Ilia Malinin e Alysa Liu, atletas de Patinagem Artística dos Estados Unidos.

Ilia, campeão mundial atual no desporto, apresentou-se como um dos favoritos ao ouro desde o início da competição. A pressão e expetativas elevadíssimas criadas à sua volta impactaram-no de forma surpreendente, levando Ilia a terminar a competição em 8º lugar. O mediatismo criado em torno da sua prestação teve consequências catastróficas, apesar da sua clara capacidade técnica e artística.

Alysa foi considerada um prodígio da patinagem artística com apenas 13 anos, ao tornar-se a mais jovem a vencer um Campeonato Nacional. Aos 16 anos, e após participar nos Jogos Olímpicos de 2022, decidiu, por vontade própria, afastar-se das competições para priorizar a sua saúde mental. 5 anos depois, a sua prestação olímpica fica marcada por 2 medalhas de ouro que têm por base a priorização do seu bem-estar físico e mental e a paixão pelo desporto, em detrimento das regras rígidas e generalizadas a que tinha sido submetida anteriormente.

É facto que o paradigma no desporto de alto rendimento, no que respeita a saúde mental, tem sofrido grandes mudanças positivas nos últimos anos. A integração de profissionais de Saúde Mental designados para o acompanhamento psicológico dos atletas reflete a crescente compreensão holística do sucesso além dos resultados.

Apesar de nem todos sermos atletas olímpicos, a Psicologia revela que os processos de desenvolvimento profissional são semelhantes, bem como os desafios que surgem do ponto de vista psicológico, como a comparação entre pares e a necessidade de ajuste de expetativas perante situações de stress laboral. As aprendizagens destes atletas, e de tantos outros, ilustram princípios fundamentais do desenvolvimento de uma carreira sustentável, onde o profissional demonstra capacidade de lidar com os desafios da sua trajetória de carreira, a par da sua vida pessoal, através da adaptabilidade ao mercado e às suas exigências. Uma carreira de sucesso não depende apenas dos resultados, mas também do processo contínuo de desenvolvimento profissional e pessoal e do gosto pela jornada até chegarmos ao topo.